segunda-feira, 25 de junho de 2012

Breve olhar sobre Cl. 2:16-17

Peter O'Brien está correto quando afirma que a "má teologia leva a má prática" na vida cristã. Essa tem sido uma triste realidade na vida da igreja cristã. A compreensão equivocada de uma determinada porção das Escrituras tende a gerar uma "experiência religiosa" distorcida e consequentemente fora dos ideiais divinos. Um mapa errado, todavia seguido corretamente, não nos levará ao destino desejado, por mais que o queiramos ou nos esforcemos em segui-lo. Tal conceito está visível na Carta de Paulo (embora alguns duvidem da autoria paulina há boas razões para aceitá-la como assim sendo) aos Colossenses. Nos referimos especificamente a 2:16 e 17.
Tais versos têm sido alvo de muita discussão nos círculos cristãos, porém há uma espécie de consenso (a maioria pensa assim, todavia não todos), defendido de diferentes formas, mas com os mesmos resultados quanto ao seu significado básico e este pode ser resumido assim: leis dietéticas, festas, lua nova e sábados eram apenas sombra da obra de Cristo, estavam restritos a uma ordem transitória e os crentes hoje não necessitam observá-los em sua vida cristã. Porém, será que isto é assim mesmo? Creio que existem bons motivos para desafiar este consenso. Tais motivos serão desenvolvidos em duas breves partes: contextuais (conteúdo e foco da carta) e sintáticos (relação entre os versos 11-17).

Análise Sintática
Colossenses 2:16 e 17 afirma: "Portanto, ninguém vos julgue por causa de comida e bebida, ou da observância de dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo." (tradução nossa)
Observe que o verso 16 começa com uma conjunção conclusiva (gr. ou=n) indicando assim que as palavras exortativas de Paulo tem por objetivo concluir sua apresentação anterior (vs. 11-15). Em 2:11-15 somos informados que Deus, em Cristo, nos tem perdoado por ocasião da morte deste na cruz (vs.13-14). A grande questão aqui é: a que se refere o escrito de dívida que constava de ordenanças e nos era contrário? Não é a lei em si que Paulo tem em mente, mas seu aspecto condenatório como a expressão "contra nós" deixa claro (v. 14) e que foi eliminado quando Jesus morreu em nosso lugar (cf. Rm. 8:1 e 3). Em outras palavras, a lei não foi cravada na cruz, como alguns têm sugerido. É dito ainda que os principados e potestades foram despojados e expostos ao desprezo (v. 15). E essas afirmações são a base para a asseveração de 2:16. Porque tudo isso aconteceu é que ninguém deveria condenar o outro em Colosso. Perdão e aceitação estão ligados a Cristo e não as obras.
Aqui não é discutida a lei dietética conforme aparece em Lv. 11 e Dt. 14, mas a forma de comer e beber. O verso segue tratando de festivais anuais (festas), mensais (lua nova) e semanais (sábados). Esta é a melhor explicação para o texto. A seguir é dito que a condenação não deve ocorrer porque (pronome relativo neutro a[), indicando o motivo do verso 16, a saber, tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir, porém o corpo é de Cristo. A pergunta é: significa que sábados, festas e lua nova eram sombra da obra de Jesus?
A palavra sombra certamente tem a conotação de algo temporário. Todavia, Gane nos adverte que a lista de Paulo aqui, está em ordem inversa a de Nm. 28 e 29. Lá as ofertas sacrificais e não os dias é que estão em destaque. Não há evidências de que os dias de lua nova tenham tipificado a obra de Cristo. Eram os sacrifícios especiais realizados nesse dia que apontavam para Jesus (Cf. Nm. 28:11-15).
Portanto, Paulo não se refere aos dias em si, mas aos rituais que eram efetuados nestes dias. Estes é que eram sombra da obra de Cristo. Isto significa que devemos ainda comemorar as festas judaicas e os dias de lua nova e sábados? Sim e não. Conforme At. 15 não é necessário praticar ritos judaicos para ser cristão. Deve-se, porém, lembrar que o sábado não faz parte desses ritos, embora alguns o coloquem nesse patamar. Ele está ligado a aspectos morais da lei e não cerimoniais. E não há evidências neotestamentárias de que tenha havido alguma mudança desse dia para outro qualquer. Assim, os crentes devem observá-lo ainda hoje, ao passo que as festas anuais e dias de lua nova não, pois estas representavam apenas costumes e tradições dos judeus.

O Contexto da Carta
A carta trata da centralidade de Jesus como o mediador da salvação. Tal ênfase permeia toda a carta, todavia é nítida em 1:15-20. Entretanto, apresenta também um falso ensino, também conhecido como "heresia colossense", um dos grandes temas de discussão nos círculos teológicos que ainda não é totalmente claro. Em 2:8 a essência do problema é descrito: "cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo;"
Entre as características dessa heresia se destacam: visões (v.18), ascetismo (v. 23) e ritualismo (v. 21). Paulo, porém destaca que tais práticas não podem transformar o interior (v. 23).
Ao dar primazia a Cristo, Paulo contrapõe as idéias heréticas em Colosso. É neste contexto que nossos versos devem ser considerados. Acrescentar obras aos feitos salvíficos de Deus em Cristo é algo incorreto. Quando se trata da salvação todas as obras são desnecesárias. O falso ensino advogava, ao que tudo indica, que os elementos do mundo deviam ser aplacados com práticas rituais e ascéticas (v. 20). No entanto, a obra de Jesus foi completa, não necessitando acréscimos (vs. 2:16, 3:2-4).

Implicações
Nem a carta como um todo, nem o contexto imediato, permitem a conclusão de que a lei foi abolida e não tem mais um caráter normativo para os crentes. O ponto de Paulo é a refutação de uma idéia herética que estava tomando conta da igreja em Colosso. O sábado, por fazer parte dos aspectos morais da lei (Êx. 20:8-11) ainda deve ser observado pelos cristãos.
Utilizar Cl. 2:16 e 17 para descaracterizar a observância sábatica não encontra apoio no contexto. A má compreensão destes versos tem sido uma das causas do esquecimento desta prescrição divina, ainda relevante no século 21.
Talvez esse esclarecimento nos ajude na nossa experiência cristã.
Até...
 
Referências Bibliográficas
O'Brien, P. T. (2002). Vol. 44: Word Biblical Commentary : Colossians-Philemon. Word Biblical Commentary (137). Dallas: Word, Incorporated.
Dunn, J. D. G. (1996). The Epistles to the Colossians and to Philemon : A commentary on the Greek text (166). Grand Rapids, Mich.; Carlisle: William B. Eerdmans Publishing; Paternoster Press.
Abbott, T. K. (1909). A critical and exegetical commentary on the epistles to the Ephesians and to the Colossians (263). New York: C. Scribner's sons.
King, M. (2008). An Exegetical Summary of Colossians (2nd ed.) (181). Dallas, TX: SIL International.
Wright, N. T. (1986). Vol. 12: Colossians and Philemon: An introduction and commentary. Originally published: The Epistles of Paul to the Colossians and to Philemon. Leicester, England : Inter-Varsity Press; Grand Rapids, Mich. W.B. Eerdmans Pub. Co., c1986. Tyndale New Testament Commentaries (125). Nottingham, England: Inter-Varsity Press.
Gane, R. (1999). Sabbath and the New Covenant in Journal of the Adventist Theological Society 10/1-2 (321).
Hughes, R. K. (1989). Colossians and Philemon : The supremacy of Christ. Preaching the Word (82). Westchester, Ill.: Crossway Books.
Zuck, R. B. (1994; Published in electronic form by Logos Research Systems, 1996). A Biblical Theology of the New Testament (electronic ed.) (305). Chicago: Moody Press.
Thielman, F. (2005). Theology of the New Testament: A Canonical and Synthetic Approach (376). Grand Rapids, MI: Zondervan.
Beale, G. K., & Carson, D. A. (2007). Commentary on the New Testament use of the Old Testament (862). Grand Rapids, MI; Nottingham, UK: Baker Academic; Apollos.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

TEXTO EM FOCO: 2ª parte

Outro versículo que pode nos auxiliar a compreender este assunto também se encontra em Efésios. Observe 2:15: "aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz". A visão tradicional é que este verso indica a perda da normatividade da lei para o cristão. Porém o contexto da passagem e do livro devem ser levados em conta. Vamos ver primeiro o que o livro como um todo afirma. Em 4:28 somos admoestados a não furtar, em 5:3 a não cobiçar e em 6:2 a honrar pai e mãe, claramente mandamentos de Deus. Portanto, a carta como um todo aponta em outra direção, pois torna prescritivo tais mandamentos e sugere que os demais também o devem ser, muito embora eles não sejam citados. Além disso, o próprio contexto imediato, ou seja, os versos próximos, dão a impressão de que Paulo não pensa assim. Leia o texto apartir do versículo 11, observe que Paulo começa suas declarações após ter afirmado que somos salvos exclusivamente pela graça (vs. 8-10) e continua dizendo que sem Cristo estávamos separados de Israel e alheios as alianças (vs.12), todavia agora é diferente, pois pela morte de Jesus fomos ligados a Ele. Dessa forma não há mais separação entre Gentios e Judeus. Ambos são um em Jesus. O contexto todo deixa claro que essa ligação e união não depende de lei ou obra alguma, mas é fruto da graça de Deus. Esse é o ponto de Paulo aqui. Portanto utilizar esse texto para tentar excluir a lei de seus aspectos normativos para a vida do crente não se encaixa com o que o autor declara aqui e em todo o livro de Efésios. Aqui o foco é outro. Ressalte-se ainda que os aspectos rituais ou cerimoniais da lei estão em vista aqui, algo que a expressão "chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisos, na carne, por mãos humanas" (vs.12) nos sugere.
Você consegue perceber a importância do contexto para uma correta interpretação do texto? Em sua leitura da Bíblia leve isso em consideração sempre. Ele é o melhor indicador do argumento do autor. Atente ainda para todo o livro que se está lendo e não apenas a alguns versos.
A segunda orientação que prometemos lhe dar é como identificar a relação entre os versos. Este ponto é importante, pois permite ao leitor seguir a argumentação do autor, sua linha de raciocínio, por assim dizer.
Vamos a esse aspecto então.

Relação entre os versos
Na leitura dos textos bíblicos se percebe um grande uso daquilo que pode ser denominado "marcardor textual." Mas a que nos referimos por esta expressão? As conjunções exercem um papel interessante quando estudamos esse assunto. A razão para isso é que elas conectam os pensamentos de um verso para outro ou ainda de uma frase para outra. Assim, nesta breve explanação a elas nos voltaremos.
As conjunções podem ser divididas em coordenadas e subordinadas.
As coordenadas podem indicar série (e, além disso, da mesma forma, nem). Progressão a um clímax (então, além disso, nem) e alternativa (ou, mas , enquanto).
As subordinadas podem ser modal, indicando a maneira como algo aconteceu (por, em que), comparativa(assim como, semelhante, como), negativa/positiva (não, mas), explanativa, por clarificar uma idéia (isto é, pois, porque), causal, indicando a razão de algo (pois, porque), conclusiva (portanto, por conseguinte), resultativa, pois gera um resultado (de modo que, que, com o resultado que), proposital, pois tem um propósito, muito embora este possa não ocorrer (a fim de que, para, com vista a), condicional (se), temporal (quando, depois, antes), e locativa (onde).
Tais, se observadas, podem auxiliar muito na interpretação correta de um texto. Um exemplo pode nos ajudar. Jo. 3:16: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." Este verso segue o 15 e como se relaciona com ele? Observe o porque inicial, ele é a explicação pela qual Deus concedeu vida eterna. Em segundo lugar João nos diz o resultado (que) desse amor, Ele nos deu Seu Filho. Ele ainda nos ressalta o propósito (para) pelo qual Jesus foi dado. Embora nem todos creiam, esse é o motivo pelo qual Jesus veio a este mundo. O propósito é definido de maneira negativa (ninguém pereça) e positiva (mas tenha a vida eterna).
Outros exemplos poderiam ser dados. Todavia, o faremos mais tarde.
Espero tê-lo auxiliado a ter uma visão melhor da maneira como interpretar a Bíblia.
Até...


Referências Bibliográficas
Schreiner, T. R. (1990). Vol. 5: Interpreting the Pauline Epistles. Guides to New Testament Exegesis (103). Grand Rapids, Mich.: Baker Book House.
Wallace, D. B. (1999; 2002). Greek Grammar Beyond the Basics - Exegetical Syntax of the New Testament (668). Zondervan Publishing House and Galaxie Software.
Moo, D. J. (1999). A Modified Lutheran View. In S. N. Gundry (Ed.), Five Views on Law and Gospel (S. N. Gundry, Ed.). Zondervan Counterpoints Collection (367). Grand Rapids, MI: Zondervan.
O'Brien, P. T. (1999). The letter to the Ephesians. The Pillar New Testament commentary (199). Grand Rapids, Mich.: W.B. Eerdmans Publishing Co.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

TEXTO EM FOCO

Dou as boas vindas a você, tratando inicialmente de um tema muito relevante para aqueles que desejam aprender mais a Bíblia e o conteúdo específico do NT. Trata-se de breves orientações para a leitura da mesma.
Todo aquele que estuda as Escrituras e devo lembrar-lhe que, a Bíblia é um livro para ser estudado e não apenas lido ou observado, necessita ter as ferramentas ou orientações adequadas a isso. Tais orientações geram a segurança de que se está no caminho correto na arte da interpretação. Muitos me afirmam: pastor, leio e não entendo! Como posso aprender a interpretar a Bíblia corretamente? Essa é a inquietação de muita gente sincera por aí. A essas dedico esta breve orientação.
Em primeiro lugar declaro que não se trata de uma tarefa difícil, entretanto requer dedicação. Introdutoriamente apresento dois aspectos que devem ser bem observados pelo estudante, são eles: contexto literário (motivo porque isso foi dito nesse ponto do livro) e as relações entre os versos (como os versos se integram dentro do argumento do autor). Ambos são complementares. Vamos aos detalhes e exemplos.

Contexto Literário
Envolve o motivo porque algo foi dito em determinado ponto na argumentação do autor. A desatenção neste ponto tem gerado muitos problemas de interpretação. A famosa frase: "um texto fora do contexto gera um pretexto" resume a relevância desse ponto. Talvez um exemplo clareie mais esse tema. Este se encontra em Ef. 4:5: "há um só Senhor, uma só fé, um só batismo;". A pergunta é: por que Paulo diz isso? Muitos tem afirmado que trata-se de quantidade de batismos, assim a correta visão do texto seria que não pode haver mais de um batismo. Uma vez batizado o crente não pode fazê-lo outra vez, mesmo que mude de denominação ou se afaste de Cristo. Entretanto há outra maneira de interpretar o texto e que se ajusta melhor ao contexto. Observe que Paulo não dá nenhuma evidência contextual que está se referindo a quantidade, nem mesmo a qualidade do batismo (como outros afirmam). Todavia, o foco da passagem é sobre a unidade dos crentes. O batismo é uma espécie de elemento unificador na igreja. Todo aquele que passa pela experiência do batismo é unido a Jesus e a seu corpo (a igreja). Porém, isto não implica em união vitalícia. E muito menos proíbe ou desautoriza a possibilidade de um novo batismo, caso seja necessário.
Você percebe como o isolamento desse verso tende a desvirtuar as palavras do autor? É por tal razão que os versos anteriores e posteriores devem ser lidos e levados em consideração. Continua...

Fontes Bibliográficas:
Lincoln, A. T. (2002). Vol. 42: Word Biblical Commentary : Ephesians. Word Biblical Commentary (240). Dallas: Word, Incorporated.
Stuart, D.; Fee, G. (2008). Manual de Exegese Bíblica: antigo e novo testamentos (205). São Paulo: Vida Nova.


Propósito do Blog

Qual a razão de ser de mais um blog sobre as Escrituras? Basta uma breve pesquisa no google para perceber a enormidade de blogs que tratam desse tema. Os assuntos abordados são os mais variados, desde a arqueologia e suas descobertas, sermões, artigos, defesas do criacionismo, etc.
Nosso foco será o Novo Testamento (geralmente abreviado para NT). Trataremos de estudar e apresentar temas relacionados diretamente com essa porção das Sagradas Escrituras, todavia, em alguns momentos será necessário abordar outras partes da Bíblia. Entretanto, o foco permanecerá imutável.
Abordaremos temas como a língua grega e a importância de seu estudo para a compreensão correta do NT, aspectos sintáticos e contextuais também merecerão nossa atenção.
A pressuposição básica deste blog é que a Bíblia interpreta a si mesma. A relevância dessa pressuposição é o fato de que atualmente há cerca de 40.000 denominações religiosas no mundo e a estimativa do International Bulletin of Missionary Research, de janeiro deste ano de 2012, é que chegue a 43.000; houve um crescimento de 26 por cento nos últimos 12 anos. Tal fato só é possível porque as pessoas querem 'interpretar' a Escritura. Porém, a educação, o ambiente social e cultural, entre outros fatores, interferem na hora da interpretação correta de um determinado texto. É bem verdade que toda a interpretação acaba sendo tendenciosa, mas é nosso dever evitar ao máximo esta situação, distanciando-nos de pressupostos que colocam a lógica e perspectiva humanas em 1º lugar.
Tentaremos fazer isso daqui em diante.
Até...