Peter O'Brien está correto quando afirma que a "má teologia leva a má prática" na vida cristã. Essa tem sido uma triste realidade na vida da igreja cristã. A compreensão equivocada de uma determinada porção das Escrituras tende a gerar uma "experiência religiosa" distorcida e consequentemente fora dos ideiais divinos. Um mapa errado, todavia seguido corretamente, não nos levará ao destino desejado, por mais que o queiramos ou nos esforcemos em segui-lo. Tal conceito está visível na Carta de Paulo (embora alguns duvidem da autoria paulina há boas razões para aceitá-la como assim sendo) aos Colossenses. Nos referimos especificamente a 2:16 e 17.
Tais versos têm sido alvo de muita discussão nos círculos cristãos, porém há uma espécie de consenso (a maioria pensa assim, todavia não todos), defendido de diferentes formas, mas com os mesmos resultados quanto ao seu significado básico e este pode ser resumido assim: leis dietéticas, festas, lua nova e sábados eram apenas sombra da obra de Cristo, estavam restritos a uma ordem transitória e os crentes hoje não necessitam observá-los em sua vida cristã. Porém, será que isto é assim mesmo? Creio que existem bons motivos para desafiar este consenso. Tais motivos serão desenvolvidos em duas breves partes: contextuais (conteúdo e foco da carta) e sintáticos (relação entre os versos 11-17).
Análise Sintática
Colossenses 2:16 e 17 afirma: "Portanto, ninguém vos julgue por causa de comida e bebida, ou da observância de dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo." (tradução nossa)
Observe que o verso 16 começa com uma conjunção conclusiva (gr. ou=n) indicando assim que as palavras exortativas de Paulo tem por objetivo concluir sua apresentação anterior (vs. 11-15). Em 2:11-15 somos informados que Deus, em Cristo, nos tem perdoado por ocasião da morte deste na cruz (vs.13-14). A grande questão aqui é: a que se refere o escrito de dívida que constava de ordenanças e nos era contrário? Não é a lei em si que Paulo tem em mente, mas seu aspecto condenatório como a expressão "contra nós" deixa claro (v. 14) e que foi eliminado quando Jesus morreu em nosso lugar (cf. Rm. 8:1 e 3). Em outras palavras, a lei não foi cravada na cruz, como alguns têm sugerido. É dito ainda que os principados e potestades foram despojados e expostos ao desprezo (v. 15). E essas afirmações são a base para a asseveração de 2:16. Porque tudo isso aconteceu é que ninguém deveria condenar o outro em Colosso. Perdão e aceitação estão ligados a Cristo e não as obras.
Aqui não é discutida a lei dietética conforme aparece em Lv. 11 e Dt. 14, mas a forma de comer e beber. O verso segue tratando de festivais anuais (festas), mensais (lua nova) e semanais (sábados). Esta é a melhor explicação para o texto. A seguir é dito que a condenação não deve ocorrer porque (pronome relativo neutro a[), indicando o motivo do verso 16, a saber, tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir, porém o corpo é de Cristo. A pergunta é: significa que sábados, festas e lua nova eram sombra da obra de Jesus?
A palavra sombra certamente tem a conotação de algo temporário. Todavia, Gane nos adverte que a lista de Paulo aqui, está em ordem inversa a de Nm. 28 e 29. Lá as ofertas sacrificais e não os dias é que estão em destaque. Não há evidências de que os dias de lua nova tenham tipificado a obra de Cristo. Eram os sacrifícios especiais realizados nesse dia que apontavam para Jesus (Cf. Nm. 28:11-15).
Portanto, Paulo não se refere aos dias em si, mas aos rituais que eram efetuados nestes dias. Estes é que eram sombra da obra de Cristo. Isto significa que devemos ainda comemorar as festas judaicas e os dias de lua nova e sábados? Sim e não. Conforme At. 15 não é necessário praticar ritos judaicos para ser cristão. Deve-se, porém, lembrar que o sábado não faz parte desses ritos, embora alguns o coloquem nesse patamar. Ele está ligado a aspectos morais da lei e não cerimoniais. E não há evidências neotestamentárias de que tenha havido alguma mudança desse dia para outro qualquer. Assim, os crentes devem observá-lo ainda hoje, ao passo que as festas anuais e dias de lua nova não, pois estas representavam apenas costumes e tradições dos judeus.
O Contexto da Carta
A carta trata da centralidade de Jesus como o mediador da salvação. Tal ênfase permeia toda a carta, todavia é nítida em 1:15-20. Entretanto, apresenta também um falso ensino, também conhecido como "heresia colossense", um dos grandes temas de discussão nos círculos teológicos que ainda não é totalmente claro. Em 2:8 a essência do problema é descrito: "cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo;"
Entre as características dessa heresia se destacam: visões (v.18), ascetismo (v. 23) e ritualismo (v. 21). Paulo, porém destaca que tais práticas não podem transformar o interior (v. 23).
Ao dar primazia a Cristo, Paulo contrapõe as idéias heréticas em Colosso. É neste contexto que nossos versos devem ser considerados. Acrescentar obras aos feitos salvíficos de Deus em Cristo é algo incorreto. Quando se trata da salvação todas as obras são desnecesárias. O falso ensino advogava, ao que tudo indica, que os elementos do mundo deviam ser aplacados com práticas rituais e ascéticas (v. 20). No entanto, a obra de Jesus foi completa, não necessitando acréscimos (vs. 2:16, 3:2-4).
Implicações
Nem a carta como um todo, nem o contexto imediato, permitem a conclusão de que a lei foi abolida e não tem mais um caráter normativo para os crentes. O ponto de Paulo é a refutação de uma idéia herética que estava tomando conta da igreja em Colosso. O sábado, por fazer parte dos aspectos morais da lei (Êx. 20:8-11) ainda deve ser observado pelos cristãos.
Utilizar Cl. 2:16 e 17 para descaracterizar a observância sábatica não encontra apoio no contexto. A má compreensão destes versos tem sido uma das causas do esquecimento desta prescrição divina, ainda relevante no século 21.
Talvez esse esclarecimento nos ajude na nossa experiência cristã.
Referências Bibliográficas
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