segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Todo Israel será salvo? Rm. 11:26

Em Romanos 11:26 Paulo faz uma intrigante afirmação: "E assim todo o Israel será salvo". Esta frase tem sido alvo de muita discussão ao longo dos séculos [1]. A razão para isso está diretamente relacionada as dificuldades inerentes ao verso. Qual o sentido de "e assim"? [2] Qual a extensão da palavra todo? A palavra Israel tem implicações étnicas ou espirituais? O que significa a salvação de Israel? [3]
Diante de tantas perguntas como pode-se compreender as declarações paulinas? Este é o desafio e a proposta desse ensaio. Dar uma olhada mais detida neste verso, seu contexto e suas relações sintáticas a fim de evidenciar a sugestão que melhor coaduna com a evidência escriturística.

O texto e seu contexto
A seguir responderemos a tais questões levando em consideração o contexto. Qual o sentido de "e assim"? Apesar de seguir o "até que" do verso 25, o que poderia indicar um aspecto temporal [4], a conjunção grega houtōs normalmente significa "assim", "dessa maneira", "desse modo", fazendo uma comparação entre as ideias conectadas.[5] Paulo está aqui indicando o modo pelo qual Israel será salvo. Abaixo, voltaremos a este ponto e suas implicações para a correta interpretação do texto. 

A segunda questão se refere a expressão "todo o Israel". A que ela se refere? E qual a extensão da palavra todo? A frase tem sido muito debatida. Quatro [6] são as principais explicações: 1) Os eleitos, composto de Israel e Gentios; 2) Todos os eleitos da nação de Israel; 3) Cada indivíduo da nação de Israel; 4) A nação de Israel, mas não todos os seus membros. A opção 1 pode ser rapidamente descartada. Pois em Rm. 9-11 a palavra Israel aparece 10 vezes e, em todas, ela tem o sentido étnico [7]. Além disso, o próprio verso 25 utiliza esta palavra neste sentido, o que torna improvável outro sentido aqui no verso 26. A sugestão 2 diminui a relevância do verso 12 que sugere a plenitude de Israel e não apenas os eleitos ou remanescentes. Paulo aguarda algo mais do que apenas a salvação de um remanescente aqui [8]. A proposta 3 desconsidera dois aspectos do texto: 1) a frase até que haja entrado a plenitude dos Gentios, do verso 25, não significa cada gentio e como o verso 26 e a expressão kai houtōs liga as sentenças, tal frase se torna relevante; 2) a frase todo o Israel é um hebraísmo e não significa cada, no AT há vários exemplos (I Rs. 12:1; II Cr. 12:1; Dn. 9:11), mas apenas indica Israel como nação [9]. É por tais razões que preferimos a alternativa 4 como aquela que melhor explica a sentença [10].

A última questão a ser respondida é como ocorrerá a salvação de Israel. Em todo o contexto de Rm. 9-11 Israel é questionado por Paulo por ter se separado de Cristo (9:3), por tropeçar na pedra de tropeço, Jesus (9:32), por deixar de crer em Cristo, o fim da lei (10:4) e a seguir, o apóstolo enfaticamente declara que fora de Cristo não há salvação (10:9-13). Havia razões para os Judeus crerem, pois eles ouviram a mensagem (10:14-21), todavia não o fizeram. Assim, cremos que a salvação de Israel se dará da mesma forma que para todas as outras nações, pela fé em Jesus Cristo, porque não há outro meio de salvação, nem na Bíblia e nem no contexto imediato de Romanos.

Implicações
Até que haja entrado a plenitude dos gentios, haverá um endurecimento em parte a Israel, mas após isso, o povo Judeu como nação, embora nem todos os judeus aceitem, será salvo. A resposta de fé dada pelos Gentios a mensagem de salvação pela fé terá um importante papel para os Judeus. Pois tal despertará o ciúme deles (11:11). Aqueles que crerem serão novamente enxertados na oliveira.
Todo não significa cada, Israel tem conotação étnica e salvação para eles será da mesma forma que para todos, pela fé. Deus não se esqueceu de Seu povo e deseja salvá-los. Tal ocorrerá após a entrada da plenitude dos Gentios e por emulação (11:14). Afirmar que Israel, incluindo todos os judeus, serão salvos é incorreto. Assim o dispensacionalismo e suas idéias não tem o apoio deste verso.

Referências Bibliográficas
1. Fitzmyer, J. A., S.J. (2008). Romans: A new translation with introduction and commentary (619). New Haven; London: Yale University Press.
2. Barret sugere três alternativas: 1) ela pode simplesmente indicar a continuidade da operação; 2) ela pode ter uma idéia temporal (naquele tempo) e 3) ela pode indicar a forma como essa salvação se dará. Ele opta por uma combinação das alternativas 2 e 3. Veja, Barrett, C. K. (1991). Black's New Testament commentary: The Epistle to the Romans (Rev. ed.) (206). Peabody, MA: Hendrickson Publishers.
3. Cottrell, J. (1996-c1998). Romans : Volume 2. College Press NIV commentary (Rm 11:25). Joplin, Mo.: College Press Pub. Co.
4. Dunn, J. D. G. (2002). Vol. 38B: Word Biblical Commentary : Romans 9-16. Word Biblical Commentary (681). Dallas: Word, Incorporated.
5. Wallace, D. B. (1999; 2002). Greek Grammar Beyond the Basics - Exegetical Syntax of the New Testament (675). Zondervan Publishing House and Galaxie Software; Schreiner, T. R. (1990). Vol. 5: Interpreting the Pauline Epistles. Guides to New Testament Exegesis (102). Grand Rapids, Mich.: Baker Book House; Bruce, F. F. (1985). Vol. 6: Romans: An introduction and commentary. Rev. ed. of: The Epistle of Paul to the Romans. 1st ed. 1963.; Cover title: Romans. Tyndale New Testament Commentaries (218). Downers Grove, IL: InterVarsity Press.
6. Eu sigo aqui a lista de Cranfield, veja Cranfield, C. E. B. (2004). A critical and exegetical commentary on the Epistle to the Romans (576). London; New York: T&T Clark International.
7. Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. The New International Commentary on the New Testament (721). Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co; Morris, L. (1988). The Epistle to the Romans (421). Grand Rapids, Mich.; Leicester, England: W.B. Eerdmans; Inter-Varsity Press.
8. Schreiner, T. R. (1998). Vol. 6: Romans. Baker exegetical commentary on the New Testament (617). Grand Rapids, Mich.: Baker Books.
9. Sanday, W., & Headlam, A. C. (1897). A critical and exegetical commentary on the Epistle of the Romans (3d ed.) (335). New York: C. Scribner's sons.
10. Murray, J. (1968). The Epistle to the Romans. The New International Commentary on the Old and New Testament (2:98). Grand Rapids, MI; Cambridge, U.K.: Wm. B. Eerdmans Publishing Co.

domingo, 15 de julho de 2012

Rm. 6:14: ESTAMOS DEBAIXO DA GRAÇA

A carta aos Romanos tem importantes declarações positivas a respeito da lei Mosaica, entretanto dentro dessa mesma obra existem algumas manifestações negativas sobre essa lei. Se por um lado ela é santa (7:12), espiritual (7:14) e permanece ao lado da fé (3:31), agora se está debaixo da graça e não da lei (6:14), os crentes morreram para ela (7:4) e foram libertos dela (7:6). Em face de tais declarações negativas não falta quem afirme a completa descontinuidade entre lei e evangelho. Outros asseveram que a lei Mosaica foi substituída pela lei de Cristo (Gl. 6:2),[1] entretanto há também aqueles que sustentam a idéia da continuidade da lei. E Romanos 6:14 exerce um papel interessante nesta discussão. Por tal razão daremos uma breve olhada em seu conteúdo.

Romanos 6:14
A clarificação de Paulo que o crente não está mais sob o domínio (kurieusei) do pecado, pois está debaixo da graça e não da Lei implica em descontinuidade entre Lei e Evangelho? O crente está desobrigado da obediência a Lei Moral? A melhor resposta parece ser um claro não. E tal está baseada na exegese dos versos 1-14.
A primeira questão a ser resolvida no texto é referente à palavra lei (nomos). Ela se refere à Lei Mosaica[2] ou a Lei no mais vasto sentido[3]? É melhor ver aqui uma menção a Lei Mosaica. Duas razões nos fazem pensar assim. A primeira é a freqüência com que Paulo alude à lei Mosaica em Romanos. Exceto em claras menções: lei da fé em 3:27, lei da mente e lei do pecado em 7:23, lei do Espírito da vida e lei do pecado e da morte 8:2.* A comparação com Gl. 3 [4] onde, sem dúvida, a lei Mosaica está em foco, pois ela é que foi adicionada 430 anos depois, tendo como mediador Moisés (vs. 17 e 19b), pode fortalecer este argumento. A segunda é a normalidade com que frases preposicionais omitem o artigo.
Mas em que sentido o crente não está mais debaixo da Lei (hupo nomos) e sim da graça (hupo charis)? Alguns sugerem que a liberdade diz respeito à condenação,[5] outros aos próprios requerimentos da lei[6], outros a dimensão social da lei[7] e há ainda aqueles que preferem ver a frase em uma histórico-salvífica forma [8] 
A sugestão de que a referência é à dimensão social da lei está ligada aquela que tem sido chamada de “A Nova Perspectiva sobre Paulo”. Entretanto, essa teologia tem sido desafiada por muitos estudiosos.[9]E como se isso não bastasse, o próprio contexto não suporta essa afirmação. Paulo trata da lei aqui em um aspecto soteriológico e não sociológico.
A proposta da alusão à condenação da lei está intimamente relacionada à afirmativa paulina em 8:1 (“nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”). E essa sugestão é atraente, pois fomos batizados e unidos a Cristo (v. 5), entretanto ela não explica satisfatoriamente a principal afirmação do texto (“porque o pecado não terá domínio sobre vós”). O conhecimento da liberdade da condenação por si só não traz a vitória sobre o domínio do pecado, no máximo ela nos informa que fomos salvos de suas conseqüências. Todavia o foco de Paulo nesta seção é o triunfo sobre o poder do pecado na vida do crente.
Tomar a frase em um histórico-salvífico sentido explica melhor o texto. E as razões para essa afirmação são as seguintes:
1.      Esta seção da carta começa a partir de uma inferência (oun) que poderia ser feita após as declarações do capítulo anterior (5:12-21). Ali Paulo tratou da obra salvífica de Cristo, entretanto o fez, propondo que a era de Adão foi à era do reinado (basileuo) do pecado pela morte (vs. 14 e 21). E tal reino exercia seu poder por meio da Lei. De forma que sua chegada apenas aumentou a ofensa e conseqüentemente tornou o pecado maior (vs. 13 e 20). Paulo dirá, mais adiante (7:7-25), que o problema não estava com a Lei, mas com a carne. Todavia, Deus resolveu a situação por meio da obediência de Cristo e sua morte vicária, trazendo a era da graça (basileuo) a sua plenitude. Assim, duas eras são claramente identificadas no capítulo 5 e, já que esta seção (6:1-14) é resultado desse capítulo, não é irrazoável ver aqui o mesmo sentido para essa expressão.
2.      Adicional suporte a esta sugestão vem da análise da expressão “debaixo da lei” em Paulo. Essa expressão aparece 11 vezes, apenas em Romanos, I Coríntios e Gálatas. Todavia é em Gálatas que a clareza dessa frase emerge e em dois textos mais especificamente. O primeiro é 3:21-25 onde é declarado que aqueles que estão “debaixo da lei” (identificada como pedagogo ou aio no vs. 24 e 25) estão encerrados sob o pecado (v. 22). E a partir da vinda de Cristo já não estamos subordinados ao aio (hupo paidagogom). O segundo é 5:18. E este texto é paralelo a Rm. 6:14, observe:
Gl. 5:18 – ouk este hupo nomon alla hupo charin
Rm. 6:14 – ouk gar este hupo nomon ei pneumati ageste
Esse paralelo sugere que Paulo usa esta expressão para contrastar a era trazida por Jesus e a era de Adão. Em sua teologia pecado e Lei estão correlacionados, e é por tal razão que em Rm. 6:14 ele conecta libertação do poder do pecado a libertação da Lei. Pois, estar “debaixo da lei” é estar na velha era. Em segundo lugar se torna natural pensar que graça é um sinônimo a Espírito para Paulo.
É importante salientar que aqui é feita uma generalização Nem todos os israelitas estavam sob o poder do pecado, nem a graça estava ausente.
Todavia isso implica que os requerimentos morais da Lei deixam de ser normativos para o crente? O raciocínio por detrás dessa idéia pode ser expressado da seguinte forma: já que a lei incita o pecado e em sua era o pecado reinou, sua eliminação contribuirá para conter o pecado. De fato a declaração que a lei avultou a ofensa envolve transgressões na esfera moral também (5:20 e 7:7). Contudo diversos motivos nos fazem discordar dessa proposta. A seguir, sumarizo aquelas que julgo serem as principais objeções.
1.      Embora, ainda careça de maior apoio dos comentaristas [10], é possível ver em Romanos uma distinção entre lei moral e cerimonial[11]. Alguns exemplos auxiliam a clarificar essa idéia. O primeiro é relacionado ao uso da palavra preceito (dikaioma) nesta Carta. Ela aparece primeiramente em 1:32 onde é dito que os Gentios o conhecem, todavia esse preceito não pode se referir aos aspectos cerimoniais da lei, pois tais não eram comuns a eles. Além disso, o próprio contexto (vs. 26 a 31) informa que a desobediência gentílica estava relacionada a aspectos morais. Em 2:26 é dito que além de conhecerem, os Gentios incircuncisos o observam. Novamente a alusão só pode ser a aspectos morais, pois a circuncisão estava ligada a lei ritual. E em 8:4 Paulo afirma que o propósito (hina) da morte de Cristo foi dar condições, por meio do Espírito Santo, aos crentes para obedecerem plenamente.[12]O contexto indica que a mesma lei moral que é aludida em 7:7 é mencionada aqui. Como complemento, em 13:8-10 o decálogo é referido como ainda normativo para os crentes.
2.      Como já foi declarado acima, Espírito Santo e Graça são sinônimos para Paulo, conforme o paralelo com Gl. 5:18 sugere. O fato de que os crentes não estão sob o poder do pecado, pois estão sob a graça indica isso. O poder do pecado, não contido pela lei, agora pode ser resolvido pela atuação do Espírito Santo na vida do crente. Agora há um poder para auxiliar na obediência a vontade de Deus, conforme o contexto propõe (vs. 12 e 13).[13]Isso nos leva ao terceiro argumento.
3.      O problema não era a lei e sim a carne. Ela, ao estar enferma pelo pecado, impedia a obediência. Todavia, o advento da graça, pela obra de Cristo, trouxe a solução para esta dificuldade (Rm. 8:3) e poder para obedecer (v. 4).
4.      A expressão “pois não estais debaixo da lei” funciona sintaticamente como a razão (gar) para a qual o pecado não exercerá seu domínio.  Entretanto, a remoção ou abolição da lei por si só não retira o poder do pecado, pois ele reinou antes da chegada da lei (Rm. 5: 13 e 14). A ausência do pecado implicaria no seu desconhecimento, mas não na sua remoção. Assim a frase de 4:15 “onde não há lei, também não há transgressão” pode ser entendida como se referindo a desobediência de mandamentos escritos e claramente identificados.[14]Logicamente ninguém pode ser acusado de transgredir algo que não conhece. Todavia não implica na eliminação da pecado.
5.      Não há nada no contexto da passagem que sugira ao crente a não observância da lei. O ponto de Paulo é evidenciar que a graça não é desculpa para o pecado, mas seu antídoto.
Enfim, a soma destes argumentos pesa contra a exclusão da lei moral. Ela permanece normativa para o crente, entretanto agora há uma nova situação para ele. A graça lhe fornece condições para obedecer. Essa é a visão que Paulo procura transmitir nestes versos e especialmente no verso 14.
Até... 



*Nota: Alguém poderia argumentar que em 7:22 e 25 a lei mosaica é qualificada com sendo de Deus, entretanto essa qualificação tem como razão o fato que a palavra lei é usada neste capítulo em diferentes sentidos. Algo que também pode ser o argumento para explicar 8:7.


Referências Bibliográficas
1. Joyce A. Little, Paul's Use of Analogy: A Structural Analysis of Romans 7:1-6 in The Catholic Biblical Quarterly, 46, 1984, pp. 83 e 84; idéia também de Frank Thielmann, veja Thielman, F. (2005). Theology of the New Testament: A Canonical and Synthetic Approach (362). Grand Rapids, MI: Zondervan. 
2. Arndt, William ; Danker, Frederick W. ; Bauer, Walter: A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature. 3rd ed. Chicago : University of Chicago Press, 2000, p. 677; Schreiner, Thomas R.: Romans. Grand Rapids, Mich. : Baker Books, 1998 (Baker Exegetical Commentary on the New Testament 6), p. 325; Dunn, James D. G.: Word Biblical Commentary : Romans 1-8. Dallas : Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 38A), p. 339; Osborne, Grant R.: Romans. Downers Grove, Ill. : InterVarsity Press, 200 (The IVP New Testament Commentary Series), p. 159; Haldane, Robert: An Exposition of Romans. electronic ed. Simpsonville SC : Christian Classics Foundation, 1996, p. 265.
3. Cottrell, Jack: Romans : Volume 1. Joplin, Mo. : College Press Pub. Co., 1996-c1998 (College Press NIV Commentary), Rm 6:13.
4. Para este paralelo veja George, Timothy: Galatians. electronic ed. Nashville : Broadman & Holman Publishers, 2001, c1994 (Logos Library System; The New American Commentary 30), p. 253 e Bruce, F. F.: The Epistle to the Galatians : A Commentary on the Greek Text. Grand Rapids, Mich. : W.B. Eerdmans Pub. Co., 1982, p. 176.
5. Cranfield, C. E. B.: A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans. London; New York : T&T Clark International, 2004, p. 320; Stott, John R. W.: The Message of Romans : God's Good News for the World. Leicester, England; Downers Grove, Ill. : InterVarsity Press, 2001], c1994 (The Bible Speaks Today), p. 181.
6. Calvin, John: Calvin's Commentaries: Romans. electronic ed. Albany, OR : Ages Software, 1998 (Logos Library System; Calvin's Commentaries), Rm 6:14;
7. Dunn, James D. G.: Word Biblical Commentary : Romans 1-8. Dallas : Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 38A), p. 340
8. Schreiner, Thomas R.: Romans. Grand Rapids, Mich. : Baker Books, 1998 (Baker Exegetical Commentary on the New Testament 6), p. 326, Dunn, James D. G.: Word Biblical Commentary : Romans 1-8. Dallas : Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 38A), p. 339; Moo, Douglas, Exegetical Notes: Romans 6:1-14 in TrinJ 3 NS (1982), p. 220.
9. Barrick, William, The New Perspective and “works of the law” (Gál. 2:16 and Rom. 3:20) in TMSJ 16/2 (2005), pp. 277-292; Thomas, Robert, Hermeneutics of the new perspective on Paul in TMSJ 16/2 (2005), pp. 293-316; Lopes, Augustus, A Nova Perspectiva sobre Paulo: um estudo sobre as obras da lei em Galátas em FIDES REFORMATA XI, Nº 1 (2006): 83-94.
10. Jr., Walter Kayser, God’s Promise Plan and His Gracious Law in JETS 33/3 (September 1990) 290.
11. Schreiner, T., The Abolition and and Fulfillment of the Law in Paul in JSNT 35 (1989), 47-74.
12. Achtemeier, Paul J.: Romans. Atlanta : John Knox Press, 1985 (Interpretation, a Bible Commentary for Teaching and Preaching), p. 134
13. Fitzmyer, J. A., S.J. (2008). Romans: A new translation with introduction and commentary (447). New Haven; London: Yale University Press’
14. Schneider, J., παράβασις in Theological dictionary of the New Testament. 1964-c1976. Vols. 5-9 edited by Gerhard Friedrich. Vol. 10 compiled by Ronald Pitkin. (G. Kittel, G. W. Bromiley & G. Friedrich, Ed.) (electronic ed.) (5:739-740). Grand Rapids, MI: Eerdmans.

domingo, 8 de julho de 2012

Quem é a Pedra? Mt. 16:18

Nosso blog trata de temas que julgamos interessantes e ao mesmo tempo têm suscitado dúvidas. Nossa idéia é desenvolver o gosto pelo estudo do NT e da Bíblia como um todo. Além disso, dar algumas informações contextuais que podem ser relevantes para o estudo de determinado texto. Todavia, é claro, que não esperamos ser a última palavra quanto ao assunto, mas apenas contribuir para o estudo e compreensão do mesmo. Além disso, temos publicado pouco para tentar preparar algo de qualidade pra sua leitura. Dito isto, vamos ao tema de hoje. Espero que seja útil.

Tema em questão
Entre os textos que são alvo de muita discussão entre os estudiosos está Mateus 16:18: "Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela." E a razão para tanto debate repousa na expressão "esta pedra" e seu referente no texto. Ela se refere a que? A Pedro, a Jesus, a confissão de Pedro, aos doze, a Deus, a verdade revelada para Pedro ou ao ofício de pregador exercido por Pedro [1] ou ainda ao ensino de Jesus (como em 7:24 [2]). Como pode se perceber são muitas as opções, todavia é lógico que só uma estava na mente do autor ao compor estas sentenças. Entretanto, creio que estas alternativas podem ser limitadas a dois grupos: aquelas que de alguma forma, direta ou indireta, se referem a Pedro e aquelas que se referem, nos mesmos padrões do outro grupo de interpretação, a Cristo. O contexto e as relações sintáticas podem nos auxiliar na decisão de qual destas propostas se ajusta melhor aqui.

Interpretações
Em anos recentes a visão que tem se tornado preponderante é que em Mt. 16:18 Pedro é a Pedra [3]. É dito que essa é a leitura mais natural do texto. Todavia, isso não implica que Pedro tenha sido o primeiro Papa ou coisas do gênero [4]. Em que se baseia essa explicação? Eis os pontos salientes nessa visão: 1) Ela explica o jogo de palavras que existe no verso (Pedro e Pedra; gr. Pe,troj| e pe,tra|). Voltaremos a esse ponto mais tarde; 2) Toma estes termos como sendo intercambiáveis, já que Petra é apenas o feminino de Pedro em grego, não implicando isso em mudança de significado; 3) Soma-se a isso o possível pano de fundo da conversa em aramaico, onde o texto estaria assim: "Tu és Kepha e sobre esta Kepha edificarei a minha igreja..."; 4) A expressão que é usada por Jesus "a ti" (soi) está em harmonia com o pronome pessoal "tu" (su.) do verso 18 e com os verbos na segunda pessoa do singular dos versos 17 e 19 "és"(ei=), sempre tendo como referente Pedro, o que indicaria que nestes versos todos (17-19) Jesus sempre se dirige a Pedro. Portanto, ele é a Pedra, pois não há evidência de que há mudança de sujeito no contexto [5]. 5) O verso 19, em face de seu pano de fundo, é apontado como evidência adicional para isso [6].
Do outro lado, aqueles que sugerem que Jesus, Seu ensino ou a Deus [7], é o antecedente de "esta rocha" o fazem argumentando da seguinte maneira: 1) Pedro e Pedra tem diferentes sentidos, sendo respectivamente pedra e rocha; 2) O demonstrativo "esta" sugere outro referente e não Pedro, pois é com ele que Jesus está dialogando. Tal pronome geralmente refere-se a algo de que se fala e não com quem se dialoga (8); 3) O possível pano de fundo aramaico do diálogo é desconsiderado, pois alega-se que não há evidências de que este tenha ocorrido em tal idioma, além disso o texto que temos está em grego e é ele que deve ter primazia na interpretação.

Avaliação e Implicações
É perceptível que ambos os lados possuem perguntas que permanecem sem respostas inequívocas. Todavia, embora isso seja claro, uma das interpretações têm mais pontos a favor do que contra.
É importante lembrar que utilizar textos de outros livros da Bíblia para interferir na interpretação deste verso de Mateus é incompreensível e inconveniente. É verdade que outros textos podem auxiliar na ratificação do estudo deste, mas não como base de sua interpretação como querem alguns [9].

Em segundo lugar não me parece correto utilizar um suposto pano de fundo aramaico para o entendimento do verso. O texto deve ser tomado como está para o estudo. Tentar conjecturar, embora comum a muitos teológos, um possível diálogo em aramaico e a partir daí tecer a interpretação é basear o comentário em um argumento no mínimo subjetivo, pois Jesus pode ter dito isto no próprio idioma grego [10]. Além disso, mesmo que o tenha feito em aramaico, não há certeza se ele usou o mesmo termo (Kepha) para se referir a Pedro e a Pedra.
Em terceiro lugar estes termos, embora usados com sentidos diferentes muitas vezes, na prática podem e várias vezes foram usados também de maneira intercambiável [11]. De modo que aqui pode ocorrer o mesmo. Além disso, é correta a observação que não há mudança de sujeito nos versos 17-19, sempre Jesus se dirige a Pedro.
A questão passa a ser a seguinte: é possível que o demonstrativo "esta" refira-se a Pedro ou como é argumentado, algumas vezes, ele só é utilizado para se referir a algo de quem se fala e não com quem se fala? O primeiro ponto a ser analisado é que esse demonstrativo (gr. οὗτος) pode se referir ao antecedente mais próximo no contexto, na mente do escritor ou ainda no tempo do autor ou audiência [12]. Assim que é possível que "esta" não se refira a Pedro. Além disso, Jesus poderia ter afirmado: e sobre ti, ao invés de esta pedra, edificarei a minha igreja. Entretanto, a despeito da atratividade dessa sugestão, não creio que o texto deva ser assim entendido. Abaixo cito as razões:
1) Mateus poderia ter usado a palavra li,qoj e assim evitar o trocadilho; 2) Soma-se a isso o fato que quando a referência de pedra ou rocha é a Jesus, no NT, normalmente o termo utilizado é esse e não
 pe,tra| [13]; 3) Embora seja correto afirmar que "esta" não tem antecedente próximo no contexto, quando Pedro é eliminado como referente, o subjetivismo praticamente toma conta da exegese, pois qualquer que seja a explicação há subsídios no NT para defendê-la; 4) E por fim, em todo o contexto, as declarações de Cristo são dirigidas a Pedro. Por tal razão essa é a leitura mais natural do texto.
Parece justa a sugestão de que Pedro seja a Pedra neste texto, entretanto utilizar essa afirmação para defender o papado e sua base bíblica é exagero e historicamente questionável [14].
Nem que Jesus, por causa disso, deixa de ser a Rocha ou Pedra, na Bíblia. Há amplas evidências de que Ele o seja.
Até...
Referências Bibliográficas
1. Para estas sugestões, veja Davies, W. D., & Allison, D. C. (2004). A critical and exegetical commentary on the Gospel according to Saint Matthew (627). London; New York: T&T Clark International.
2. Para a possibilidade desta interpretação, veja Gundry, R. H. (2003). A Survey of the New Testament (Fourth Edition) (186). Grand Rapids, MI: Zondervan.
3. Para uma defesa dessa visão, veja Morris, L. (1992). The Gospel according to Matthew (423). Grand Rapids, Mich.; Leicester, England: W.B. Eerdmans; Inter-Varsity Press; Hagner, D. A. (2002). Vol. 33B: Word Biblical Commentary : Matthew 14-28. Word Biblical Commentary (470). Dallas: Word, Incorporated; Osborne, G. R. (2010). Matthew (627). Grand Rapids, MI: Zondervan; Blomberg, C. (2001, c1992). Vol. 22: Matthew (electronic ed.). Logos Library System; The New American Commentary (252). Nashville: Broadman & Holman Publishers; Keener, C. S. (2009). The Gospel of Matthew: A Socio-Rhetorical Commentary (427). Grand Rapids, MI; Cambridge, U.K.: Wm. B. Eerdmans Publishing Co; France, R. T. (2007). The Gospel of Matthew. The New International Commentary on the New Testament (622). Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publication Co; Carson, D. A. (1984). Matthew. In F. E. Gaebelein (Ed.), The Expositor's Bible Commentary, Volume 8: Matthew, Mark, Luke (F. E. Gaebelein, Ed.) (368). Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House. Para citar apenas alguns.
4. Chouinard, L. (1997). Matthew. The College Press NIV commentary (Mt 16:18). Joplin, Mo.: College Press.
5. Embora não seja dito claramente isso, esta é a implicação imediata de sua explicação, veja Hendriksen, W., & Kistemaker, S. J. (1953-2001). Vol. 9: New Testament commentary : Exposition of the Gospel According to Matthew. Accompanying biblical text is author's translation. New Testament Commentary (645). Grand Rapids: Baker Book House
6. Albright, W. F., & Mann, C. S. (2008). Matthew: Introduction, translation, and notes (195). New Haven; London: Yale University Press.
7. Lenski, R. C. H. (1961). The Interpretation of St. Matthew's Gospel (626). Minneapolis, MN.: Augsburg Publishing House;
Walvoord, J. F. (2007; 2007). Matthew: Thy Kingdom Come (123). Galaxie Software.
8. Garland, D. E. (2001). Reading Matthew: A literary and theological commentary on the first Gospel. Originally published: New York : Crossroad, 1993. Reading the New Testament series (173). Macon, Ga.: Smyth & Helwys Publishing.
9. Para este tipo de estudo, veja MacArthur, J. (1989). Matthew (28). Chicago: Moody Press.
10. Turner, N. (1966). Grammatical insights into the New Testament. (181). Edinburgh: T. & T. Clark; Robertson, A. (1919; 2006). A Grammar of the Greek New Testament in the Light of Historical Research (29). Logos. A afirmação de Wise de que isso é apenas teoria não implica que não possa ter ocorrido. Veja os argumentos dele em Wise, M. O.. Languages of Palestine in Dictionary of Jesus and the Gospels edited by Green, J. B., McKnight, S., & Marshall, I. H. (1992). Downers Grove, Ill.: InterVarsity Press.
11. Cullmann, O., πέτρα in Theological dictionary of the New Testament. 1964-c1976. Vols. 5-9 edited by Gerhard Friedrich. Vol. 10 compiled by Ronald Pitkin. (G. Kittel, G. W. Bromiley & G. Friedrich, Ed.) (electronic ed.) (6). Grand Rapids, MI: Eerdmans.
12. Wallace, D. B. (1999; 2002). Greek Grammar Beyond the Basics - Exegetical Syntax of the New Testament (325). Zondervan Publishing House and Galaxie Software.
13. Mt. 21:42, 44; Rm. 9:33; I Pd. 2:4, entre outros.
14. Luz, U., & Koester, H. (2001). Matthew : A commentary. Translation of: Das Evangelium nach Matthaus.; Vol. 2 translated by James E. Crouch ; edited by Helmut Koester.; Vol. 2 published by Fortress Press. (374). Minneapolis: Augsburg. Embora não concordemos com a conclusão de Reymond, seus argumentos são muito úteis aqui. Veja, Reymond, R. L. (2001). The Reformation's Conflict with Rome: Why It Must Continue (36-52). Fearn, Ross-shire, UK: Christian Focus Publications. Veja ainda Schaff, P., & Schaff, D. S. (1997). History of the Christian church. Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc.

domingo, 1 de julho de 2012

Romanos 10:4: Cristo e a Lei

Romanos 10:4 tem uma importante declaração a respeito de Cristo e da Lei. Não é sem motivo que ele permanece como sendo um dos textos mais controversos do NT[1]. Schreiner cita pelo menos oito interpretações para este verso [2]. São elas: a lei foi abolida (visão Luterana), a era messiânica encerra a era da lei, a lei acabou como uma forma de salvação, Cristo é o fim da lei cerimonial, a exclusividade da lei é posta de lado, Cristo é o alvo da lei, Cristo é o fim e alvo da lei e por fim, Cristo é o fim de  usar a lei para obter a justiça. Qual destas posições se encaixa melhor no contexto?Nosso texto tentará averiguar isso. Então, vamos a ele.
O Texto em seu Contexto
Rm. 10:4: "Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê". (ARA). Um dos problemas deste verso é o significado exato de fim (gr. τέλος). Este termo pode ter dois sentidos: alvo [3] ou fim [4].  Alguns teólogos ainda defendem uma terceira opção ao sugerir que os dois sentidos estão presentes aqui [5].  Deve-se levar em consideração que o contexto também pesa quanto ao sentido de uma palavra. Um exemplo pode nos ajudar a entender esse ponto. A palavra gato é útil aqui. Ela pode ter três sentidos: um animal, alguém bonito e na linguagem da polícia um bandido. Qual destes três significados é correto? Todos. Mas o contexto identifica a que a palavra se refere. Comprendeu? Portanto, antes de nos posicionarmos quanto ao seu sentido, analisaremos brevemente o contexto.
O contexto de Rm. 10:4 começa em 9:30. Ali nos é informado que os gentios alcançaram, apesar de não estarem buscando, a justificação, todavia a que decorre de fé. Enquanto que Israel falhou em atingir a lei de justiça (em grego o genitivo é melhor explicado como sendo objetivo: a lei para justiça [6]). A razão (porque) para essa falha foi a busca por meio das obras e não da fé (9:32). O verso 32 ainda segue dizendo que eles tropeçaram na pedra que é Jesus como a citação do verso 33 deixa evidente. Em suma, o problema não era lei em si, mas a forma como Israel se relacionava com ela (por meio das obras), pois guardar a lei nunca foi contrário a fé no Antigo Testamento [7].
Os versos 1-4 do capítulo 10 são uma expansão do assunto [8]. Em 10:2 Paulo afirma que Israel tem zelo por Deus e essa é a razão (porque) pela qual ele intercede (v.1), porém esse é sem entendimento. Então o verso 3 apresenta dois particípios (desconhecendo e procurando) que explicam (porquanto) sua falta de entendimento. Dessa forma são contrastadas duas justiças: a de Deus e a sua própria (de Israel). Alguns sugerem que a expressão "própria justiça" está ligada a dimensões sociológicas. Ou seja, Israel impunha limites aos Gentios (sábado, circuncisão e leis dietéticas [9]) para se tornarem herdeiros de Deus. Todavia, duas razões nos impedem de defender essa visão aqui: 1) nada no contexto nos indica essa dimensão apenas social e 2) essa visão tem sido muito questionada em anos recentes [10].
A nação Israelita, por desconhecer que a justiça é fruto da graça, buscava estabelecer a sua própria, pelas obras (9:32) e não se sujeitaram a de Deus. Então temos o verso 4.
Paulo estabelece uma explicação adicional do porque não se sujeitaram a justiça de Deus: além de não terem entendimento (por desconhecer e procurar estabelecer sua própria justiça), eles ignoraram a figura de Cristo e sua relação com a Lei. E qual é essa relação? Cristo é o fim ou o alvo da Lei? Ou ambos?
Em todo o contexto o significado que melhor se encaixa é alvo. As razões são as seguintes: 1) A imagem de Paulo em 9:30-33 é de uma corrida (perseguir, obter) onde um alvo está em vista 2) O foco de todo o contexto é o modo de relacionamento (por obras) com a Lei e não ela mesma [11] 3) Coaduna melhor com contexto mais amplo da Carta (Rm 3:31). Dar os dois sentidos ao termo τέλος é no mínimo incoerência, já que os dois significados praticamente se excluem. Assim, Cristo é o alvo para o qual a Lei foi intencionada. A justiça não está na Lei, mas em seu alvo: Jesus. E todo aquele que crê nEle é justificado.
Em outras palavras: Israel não deveria confiar na observância da Lei para a obtenção de justiça, mas em Jesus, o alvo (objetivo, propósito) para o qual ela apontava. É por tal razão que Paulo termina o verso 4 afirmando que Ele é o alvo da Lei para todo aquele que crê. O que Romanos deixa claro aqui é que salvação (justificação, perdão) só se encontra em Jesus. Todavia, isso não significa que a Lei não deva ser observada, pelo contrário, se nossa interpretação está certa, a lei nos guiará e manterá com os olhos nEle. 

Considerações Finais
Não há nada no contexto imediato, nem na Carta como um todo (Rm. 3:31; 7:12; 8:4; 13:8-10) que diminua a normatividade da Lei para a vida do crente. Paulo trata aqui de maneira experiencial, ou seja, da realidade vivida por Israel e não da relação entre ela e o Evangelho. Nem a Lei, nem sua observância estão sendo questionados, mas uma forma particular de observá-la é a questão aqui no contexto (9:32).[12] Portanto utilizar este texto para afirmar que não é mais necessária a obediência ou que Jesus a aboliu é desvirtuar o foco da mensagem de Paulo. Aqui também não cabe a interpretação de que só a Lei cerimonial está em vista, pois o contexto não dá indícios disso.
O propósito da Lei era levar o crente a ter fé em Cristo (Gl. 3:22-24). O Problema de Israel foi não entender isso. Depositaram sua fé na Lei e não em Jesus. Ela não foi dada como meio de salvação, mas como sinal de fé.
Guardar a Lei é um sinal de obediência e fé em Jesus, assim o era no AT e também o é hoje. Não há razões neste texto para não obedecer a Lei. Ela ainda é normativa para nós.
A melhor explicação para o texto é a que afirma que Jesus é o alvo da lei para a obtenção de justiça.
Espero que está breve explanação possa ajudá-lo em sua caminhada cristã.
Até...

Fontes Bibliográficas
1. Heil, J. P. (2001). Christh, the termination of the Law (Romans 9:30-10:8) in The Catholic Biblical Quarterly 63, p. 484.
2. Schreiner, T. (1993). Paul's view of the Law in Romans 10:4-5 in WTJ 55, pp. 113-135.
3. Cranfield, C. E. B. (2004). A critical and exegetical commentary on the Epistle to the Romans (519). London; New York: T&T Clark International; Jewett, R., Kotansky, R. D., & Epp, E. J. (2006). Romans : A commentary. Hermeneia--a critical and historical commentary on the Bible (619). Minneapolis: Fortress Press.
4. Hughes, R. K. (1991). Romans : Righteousness from heaven. Preaching the Word (186). Wheaton, Ill.: Crossway Books; Morris, L. (1988). The Epistle to the Romans (381). Grand Rapids, Mich.; Leicester, England: W.B. Eerdmans; Inter-Varsity Press; Cottrell, J. (1996-c1998). Romans : Volume 2. College Press NIV commentary (Rm 10:4). Joplin, Mo.: College Press Pub. Co.
5. Bruce, F. F. (1985). Vol. 6: Romans: An introduction and commentary. Rev. ed. of: The Epistle of Paul to the Romans. 1st ed. 1963.; Cover title: Romans. Tyndale New Testament Commentaries (200). Nottingham, England: Inter-Varsity Press; Moo, D. J. (2000). The NIV Application Commentary: Romans (330). Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House; Barrett, C. K. (1991). Black's New Testament commentary: The Epistle to the Romans (Rev. ed.) (184). Peabody, MA: Hendrickson Publishers.
6. Ao contrário do que pensa Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. The New International Commentary on the New Testament (624). Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co.
7. Schreiner, T. R. (1998). Vol. 6: Romans. Baker exegetical commentary on the New Testament (539). Grand Rapids, Mich.: Baker Books.
8. Sanday, W., & Headlam, A. C. (1897). A critical and exegetical commentary on the Epistle of the Romans (3d ed.) (282). New York: C. Scribner's sons.
9. Toews, J. E. (2004). Romans. Believers church Bible commentary (262). Scottdale, Pa.: Herald Press. A sua sugestão que a expressão própria seja contrastada com outras, indicando a justiça de Israel em relação aos outros povos, não encontra amparo no contexto. 
10. Barrick, W. (2005). The New Perspective and “works of the law” (Gál. 2:16 and Rom. 3:20) in TMSJ 16/2 pp. 277-292; Thomas, R. (2005). Hermeneutics of the new perspective on Paul in TMSJ 16/2 pp. 293-316; Lopes, A.(2006). A Nova Perspectiva sobre Paulo: um estudo sobre as obras da lei em Galátas em FIDES REFORMATA XI, Nº 1, pp. 83-94.
11. Rhyne, C. T. (1985). Nomos Dikayosines and the meaning of Romans 10:4 in The Catholical Biblical Quarterly, 47, pp. 489,490.
12. Bechtler, S. R. (1994). Christ, the Tέλος of the Law: the goal of Romans 10:4 in The Catholical Biblical Quarterly 56, p. 295

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Breve olhar sobre Cl. 2:16-17

Peter O'Brien está correto quando afirma que a "má teologia leva a má prática" na vida cristã. Essa tem sido uma triste realidade na vida da igreja cristã. A compreensão equivocada de uma determinada porção das Escrituras tende a gerar uma "experiência religiosa" distorcida e consequentemente fora dos ideiais divinos. Um mapa errado, todavia seguido corretamente, não nos levará ao destino desejado, por mais que o queiramos ou nos esforcemos em segui-lo. Tal conceito está visível na Carta de Paulo (embora alguns duvidem da autoria paulina há boas razões para aceitá-la como assim sendo) aos Colossenses. Nos referimos especificamente a 2:16 e 17.
Tais versos têm sido alvo de muita discussão nos círculos cristãos, porém há uma espécie de consenso (a maioria pensa assim, todavia não todos), defendido de diferentes formas, mas com os mesmos resultados quanto ao seu significado básico e este pode ser resumido assim: leis dietéticas, festas, lua nova e sábados eram apenas sombra da obra de Cristo, estavam restritos a uma ordem transitória e os crentes hoje não necessitam observá-los em sua vida cristã. Porém, será que isto é assim mesmo? Creio que existem bons motivos para desafiar este consenso. Tais motivos serão desenvolvidos em duas breves partes: contextuais (conteúdo e foco da carta) e sintáticos (relação entre os versos 11-17).

Análise Sintática
Colossenses 2:16 e 17 afirma: "Portanto, ninguém vos julgue por causa de comida e bebida, ou da observância de dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo." (tradução nossa)
Observe que o verso 16 começa com uma conjunção conclusiva (gr. ou=n) indicando assim que as palavras exortativas de Paulo tem por objetivo concluir sua apresentação anterior (vs. 11-15). Em 2:11-15 somos informados que Deus, em Cristo, nos tem perdoado por ocasião da morte deste na cruz (vs.13-14). A grande questão aqui é: a que se refere o escrito de dívida que constava de ordenanças e nos era contrário? Não é a lei em si que Paulo tem em mente, mas seu aspecto condenatório como a expressão "contra nós" deixa claro (v. 14) e que foi eliminado quando Jesus morreu em nosso lugar (cf. Rm. 8:1 e 3). Em outras palavras, a lei não foi cravada na cruz, como alguns têm sugerido. É dito ainda que os principados e potestades foram despojados e expostos ao desprezo (v. 15). E essas afirmações são a base para a asseveração de 2:16. Porque tudo isso aconteceu é que ninguém deveria condenar o outro em Colosso. Perdão e aceitação estão ligados a Cristo e não as obras.
Aqui não é discutida a lei dietética conforme aparece em Lv. 11 e Dt. 14, mas a forma de comer e beber. O verso segue tratando de festivais anuais (festas), mensais (lua nova) e semanais (sábados). Esta é a melhor explicação para o texto. A seguir é dito que a condenação não deve ocorrer porque (pronome relativo neutro a[), indicando o motivo do verso 16, a saber, tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir, porém o corpo é de Cristo. A pergunta é: significa que sábados, festas e lua nova eram sombra da obra de Jesus?
A palavra sombra certamente tem a conotação de algo temporário. Todavia, Gane nos adverte que a lista de Paulo aqui, está em ordem inversa a de Nm. 28 e 29. Lá as ofertas sacrificais e não os dias é que estão em destaque. Não há evidências de que os dias de lua nova tenham tipificado a obra de Cristo. Eram os sacrifícios especiais realizados nesse dia que apontavam para Jesus (Cf. Nm. 28:11-15).
Portanto, Paulo não se refere aos dias em si, mas aos rituais que eram efetuados nestes dias. Estes é que eram sombra da obra de Cristo. Isto significa que devemos ainda comemorar as festas judaicas e os dias de lua nova e sábados? Sim e não. Conforme At. 15 não é necessário praticar ritos judaicos para ser cristão. Deve-se, porém, lembrar que o sábado não faz parte desses ritos, embora alguns o coloquem nesse patamar. Ele está ligado a aspectos morais da lei e não cerimoniais. E não há evidências neotestamentárias de que tenha havido alguma mudança desse dia para outro qualquer. Assim, os crentes devem observá-lo ainda hoje, ao passo que as festas anuais e dias de lua nova não, pois estas representavam apenas costumes e tradições dos judeus.

O Contexto da Carta
A carta trata da centralidade de Jesus como o mediador da salvação. Tal ênfase permeia toda a carta, todavia é nítida em 1:15-20. Entretanto, apresenta também um falso ensino, também conhecido como "heresia colossense", um dos grandes temas de discussão nos círculos teológicos que ainda não é totalmente claro. Em 2:8 a essência do problema é descrito: "cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo;"
Entre as características dessa heresia se destacam: visões (v.18), ascetismo (v. 23) e ritualismo (v. 21). Paulo, porém destaca que tais práticas não podem transformar o interior (v. 23).
Ao dar primazia a Cristo, Paulo contrapõe as idéias heréticas em Colosso. É neste contexto que nossos versos devem ser considerados. Acrescentar obras aos feitos salvíficos de Deus em Cristo é algo incorreto. Quando se trata da salvação todas as obras são desnecesárias. O falso ensino advogava, ao que tudo indica, que os elementos do mundo deviam ser aplacados com práticas rituais e ascéticas (v. 20). No entanto, a obra de Jesus foi completa, não necessitando acréscimos (vs. 2:16, 3:2-4).

Implicações
Nem a carta como um todo, nem o contexto imediato, permitem a conclusão de que a lei foi abolida e não tem mais um caráter normativo para os crentes. O ponto de Paulo é a refutação de uma idéia herética que estava tomando conta da igreja em Colosso. O sábado, por fazer parte dos aspectos morais da lei (Êx. 20:8-11) ainda deve ser observado pelos cristãos.
Utilizar Cl. 2:16 e 17 para descaracterizar a observância sábatica não encontra apoio no contexto. A má compreensão destes versos tem sido uma das causas do esquecimento desta prescrição divina, ainda relevante no século 21.
Talvez esse esclarecimento nos ajude na nossa experiência cristã.
Até...
 
Referências Bibliográficas
O'Brien, P. T. (2002). Vol. 44: Word Biblical Commentary : Colossians-Philemon. Word Biblical Commentary (137). Dallas: Word, Incorporated.
Dunn, J. D. G. (1996). The Epistles to the Colossians and to Philemon : A commentary on the Greek text (166). Grand Rapids, Mich.; Carlisle: William B. Eerdmans Publishing; Paternoster Press.
Abbott, T. K. (1909). A critical and exegetical commentary on the epistles to the Ephesians and to the Colossians (263). New York: C. Scribner's sons.
King, M. (2008). An Exegetical Summary of Colossians (2nd ed.) (181). Dallas, TX: SIL International.
Wright, N. T. (1986). Vol. 12: Colossians and Philemon: An introduction and commentary. Originally published: The Epistles of Paul to the Colossians and to Philemon. Leicester, England : Inter-Varsity Press; Grand Rapids, Mich. W.B. Eerdmans Pub. Co., c1986. Tyndale New Testament Commentaries (125). Nottingham, England: Inter-Varsity Press.
Gane, R. (1999). Sabbath and the New Covenant in Journal of the Adventist Theological Society 10/1-2 (321).
Hughes, R. K. (1989). Colossians and Philemon : The supremacy of Christ. Preaching the Word (82). Westchester, Ill.: Crossway Books.
Zuck, R. B. (1994; Published in electronic form by Logos Research Systems, 1996). A Biblical Theology of the New Testament (electronic ed.) (305). Chicago: Moody Press.
Thielman, F. (2005). Theology of the New Testament: A Canonical and Synthetic Approach (376). Grand Rapids, MI: Zondervan.
Beale, G. K., & Carson, D. A. (2007). Commentary on the New Testament use of the Old Testament (862). Grand Rapids, MI; Nottingham, UK: Baker Academic; Apollos.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

TEXTO EM FOCO: 2ª parte

Outro versículo que pode nos auxiliar a compreender este assunto também se encontra em Efésios. Observe 2:15: "aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz". A visão tradicional é que este verso indica a perda da normatividade da lei para o cristão. Porém o contexto da passagem e do livro devem ser levados em conta. Vamos ver primeiro o que o livro como um todo afirma. Em 4:28 somos admoestados a não furtar, em 5:3 a não cobiçar e em 6:2 a honrar pai e mãe, claramente mandamentos de Deus. Portanto, a carta como um todo aponta em outra direção, pois torna prescritivo tais mandamentos e sugere que os demais também o devem ser, muito embora eles não sejam citados. Além disso, o próprio contexto imediato, ou seja, os versos próximos, dão a impressão de que Paulo não pensa assim. Leia o texto apartir do versículo 11, observe que Paulo começa suas declarações após ter afirmado que somos salvos exclusivamente pela graça (vs. 8-10) e continua dizendo que sem Cristo estávamos separados de Israel e alheios as alianças (vs.12), todavia agora é diferente, pois pela morte de Jesus fomos ligados a Ele. Dessa forma não há mais separação entre Gentios e Judeus. Ambos são um em Jesus. O contexto todo deixa claro que essa ligação e união não depende de lei ou obra alguma, mas é fruto da graça de Deus. Esse é o ponto de Paulo aqui. Portanto utilizar esse texto para tentar excluir a lei de seus aspectos normativos para a vida do crente não se encaixa com o que o autor declara aqui e em todo o livro de Efésios. Aqui o foco é outro. Ressalte-se ainda que os aspectos rituais ou cerimoniais da lei estão em vista aqui, algo que a expressão "chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisos, na carne, por mãos humanas" (vs.12) nos sugere.
Você consegue perceber a importância do contexto para uma correta interpretação do texto? Em sua leitura da Bíblia leve isso em consideração sempre. Ele é o melhor indicador do argumento do autor. Atente ainda para todo o livro que se está lendo e não apenas a alguns versos.
A segunda orientação que prometemos lhe dar é como identificar a relação entre os versos. Este ponto é importante, pois permite ao leitor seguir a argumentação do autor, sua linha de raciocínio, por assim dizer.
Vamos a esse aspecto então.

Relação entre os versos
Na leitura dos textos bíblicos se percebe um grande uso daquilo que pode ser denominado "marcardor textual." Mas a que nos referimos por esta expressão? As conjunções exercem um papel interessante quando estudamos esse assunto. A razão para isso é que elas conectam os pensamentos de um verso para outro ou ainda de uma frase para outra. Assim, nesta breve explanação a elas nos voltaremos.
As conjunções podem ser divididas em coordenadas e subordinadas.
As coordenadas podem indicar série (e, além disso, da mesma forma, nem). Progressão a um clímax (então, além disso, nem) e alternativa (ou, mas , enquanto).
As subordinadas podem ser modal, indicando a maneira como algo aconteceu (por, em que), comparativa(assim como, semelhante, como), negativa/positiva (não, mas), explanativa, por clarificar uma idéia (isto é, pois, porque), causal, indicando a razão de algo (pois, porque), conclusiva (portanto, por conseguinte), resultativa, pois gera um resultado (de modo que, que, com o resultado que), proposital, pois tem um propósito, muito embora este possa não ocorrer (a fim de que, para, com vista a), condicional (se), temporal (quando, depois, antes), e locativa (onde).
Tais, se observadas, podem auxiliar muito na interpretação correta de um texto. Um exemplo pode nos ajudar. Jo. 3:16: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." Este verso segue o 15 e como se relaciona com ele? Observe o porque inicial, ele é a explicação pela qual Deus concedeu vida eterna. Em segundo lugar João nos diz o resultado (que) desse amor, Ele nos deu Seu Filho. Ele ainda nos ressalta o propósito (para) pelo qual Jesus foi dado. Embora nem todos creiam, esse é o motivo pelo qual Jesus veio a este mundo. O propósito é definido de maneira negativa (ninguém pereça) e positiva (mas tenha a vida eterna).
Outros exemplos poderiam ser dados. Todavia, o faremos mais tarde.
Espero tê-lo auxiliado a ter uma visão melhor da maneira como interpretar a Bíblia.
Até...


Referências Bibliográficas
Schreiner, T. R. (1990). Vol. 5: Interpreting the Pauline Epistles. Guides to New Testament Exegesis (103). Grand Rapids, Mich.: Baker Book House.
Wallace, D. B. (1999; 2002). Greek Grammar Beyond the Basics - Exegetical Syntax of the New Testament (668). Zondervan Publishing House and Galaxie Software.
Moo, D. J. (1999). A Modified Lutheran View. In S. N. Gundry (Ed.), Five Views on Law and Gospel (S. N. Gundry, Ed.). Zondervan Counterpoints Collection (367). Grand Rapids, MI: Zondervan.
O'Brien, P. T. (1999). The letter to the Ephesians. The Pillar New Testament commentary (199). Grand Rapids, Mich.: W.B. Eerdmans Publishing Co.