domingo, 15 de julho de 2012

Rm. 6:14: ESTAMOS DEBAIXO DA GRAÇA

A carta aos Romanos tem importantes declarações positivas a respeito da lei Mosaica, entretanto dentro dessa mesma obra existem algumas manifestações negativas sobre essa lei. Se por um lado ela é santa (7:12), espiritual (7:14) e permanece ao lado da fé (3:31), agora se está debaixo da graça e não da lei (6:14), os crentes morreram para ela (7:4) e foram libertos dela (7:6). Em face de tais declarações negativas não falta quem afirme a completa descontinuidade entre lei e evangelho. Outros asseveram que a lei Mosaica foi substituída pela lei de Cristo (Gl. 6:2),[1] entretanto há também aqueles que sustentam a idéia da continuidade da lei. E Romanos 6:14 exerce um papel interessante nesta discussão. Por tal razão daremos uma breve olhada em seu conteúdo.

Romanos 6:14
A clarificação de Paulo que o crente não está mais sob o domínio (kurieusei) do pecado, pois está debaixo da graça e não da Lei implica em descontinuidade entre Lei e Evangelho? O crente está desobrigado da obediência a Lei Moral? A melhor resposta parece ser um claro não. E tal está baseada na exegese dos versos 1-14.
A primeira questão a ser resolvida no texto é referente à palavra lei (nomos). Ela se refere à Lei Mosaica[2] ou a Lei no mais vasto sentido[3]? É melhor ver aqui uma menção a Lei Mosaica. Duas razões nos fazem pensar assim. A primeira é a freqüência com que Paulo alude à lei Mosaica em Romanos. Exceto em claras menções: lei da fé em 3:27, lei da mente e lei do pecado em 7:23, lei do Espírito da vida e lei do pecado e da morte 8:2.* A comparação com Gl. 3 [4] onde, sem dúvida, a lei Mosaica está em foco, pois ela é que foi adicionada 430 anos depois, tendo como mediador Moisés (vs. 17 e 19b), pode fortalecer este argumento. A segunda é a normalidade com que frases preposicionais omitem o artigo.
Mas em que sentido o crente não está mais debaixo da Lei (hupo nomos) e sim da graça (hupo charis)? Alguns sugerem que a liberdade diz respeito à condenação,[5] outros aos próprios requerimentos da lei[6], outros a dimensão social da lei[7] e há ainda aqueles que preferem ver a frase em uma histórico-salvífica forma [8] 
A sugestão de que a referência é à dimensão social da lei está ligada aquela que tem sido chamada de “A Nova Perspectiva sobre Paulo”. Entretanto, essa teologia tem sido desafiada por muitos estudiosos.[9]E como se isso não bastasse, o próprio contexto não suporta essa afirmação. Paulo trata da lei aqui em um aspecto soteriológico e não sociológico.
A proposta da alusão à condenação da lei está intimamente relacionada à afirmativa paulina em 8:1 (“nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”). E essa sugestão é atraente, pois fomos batizados e unidos a Cristo (v. 5), entretanto ela não explica satisfatoriamente a principal afirmação do texto (“porque o pecado não terá domínio sobre vós”). O conhecimento da liberdade da condenação por si só não traz a vitória sobre o domínio do pecado, no máximo ela nos informa que fomos salvos de suas conseqüências. Todavia o foco de Paulo nesta seção é o triunfo sobre o poder do pecado na vida do crente.
Tomar a frase em um histórico-salvífico sentido explica melhor o texto. E as razões para essa afirmação são as seguintes:
1.      Esta seção da carta começa a partir de uma inferência (oun) que poderia ser feita após as declarações do capítulo anterior (5:12-21). Ali Paulo tratou da obra salvífica de Cristo, entretanto o fez, propondo que a era de Adão foi à era do reinado (basileuo) do pecado pela morte (vs. 14 e 21). E tal reino exercia seu poder por meio da Lei. De forma que sua chegada apenas aumentou a ofensa e conseqüentemente tornou o pecado maior (vs. 13 e 20). Paulo dirá, mais adiante (7:7-25), que o problema não estava com a Lei, mas com a carne. Todavia, Deus resolveu a situação por meio da obediência de Cristo e sua morte vicária, trazendo a era da graça (basileuo) a sua plenitude. Assim, duas eras são claramente identificadas no capítulo 5 e, já que esta seção (6:1-14) é resultado desse capítulo, não é irrazoável ver aqui o mesmo sentido para essa expressão.
2.      Adicional suporte a esta sugestão vem da análise da expressão “debaixo da lei” em Paulo. Essa expressão aparece 11 vezes, apenas em Romanos, I Coríntios e Gálatas. Todavia é em Gálatas que a clareza dessa frase emerge e em dois textos mais especificamente. O primeiro é 3:21-25 onde é declarado que aqueles que estão “debaixo da lei” (identificada como pedagogo ou aio no vs. 24 e 25) estão encerrados sob o pecado (v. 22). E a partir da vinda de Cristo já não estamos subordinados ao aio (hupo paidagogom). O segundo é 5:18. E este texto é paralelo a Rm. 6:14, observe:
Gl. 5:18 – ouk este hupo nomon alla hupo charin
Rm. 6:14 – ouk gar este hupo nomon ei pneumati ageste
Esse paralelo sugere que Paulo usa esta expressão para contrastar a era trazida por Jesus e a era de Adão. Em sua teologia pecado e Lei estão correlacionados, e é por tal razão que em Rm. 6:14 ele conecta libertação do poder do pecado a libertação da Lei. Pois, estar “debaixo da lei” é estar na velha era. Em segundo lugar se torna natural pensar que graça é um sinônimo a Espírito para Paulo.
É importante salientar que aqui é feita uma generalização Nem todos os israelitas estavam sob o poder do pecado, nem a graça estava ausente.
Todavia isso implica que os requerimentos morais da Lei deixam de ser normativos para o crente? O raciocínio por detrás dessa idéia pode ser expressado da seguinte forma: já que a lei incita o pecado e em sua era o pecado reinou, sua eliminação contribuirá para conter o pecado. De fato a declaração que a lei avultou a ofensa envolve transgressões na esfera moral também (5:20 e 7:7). Contudo diversos motivos nos fazem discordar dessa proposta. A seguir, sumarizo aquelas que julgo serem as principais objeções.
1.      Embora, ainda careça de maior apoio dos comentaristas [10], é possível ver em Romanos uma distinção entre lei moral e cerimonial[11]. Alguns exemplos auxiliam a clarificar essa idéia. O primeiro é relacionado ao uso da palavra preceito (dikaioma) nesta Carta. Ela aparece primeiramente em 1:32 onde é dito que os Gentios o conhecem, todavia esse preceito não pode se referir aos aspectos cerimoniais da lei, pois tais não eram comuns a eles. Além disso, o próprio contexto (vs. 26 a 31) informa que a desobediência gentílica estava relacionada a aspectos morais. Em 2:26 é dito que além de conhecerem, os Gentios incircuncisos o observam. Novamente a alusão só pode ser a aspectos morais, pois a circuncisão estava ligada a lei ritual. E em 8:4 Paulo afirma que o propósito (hina) da morte de Cristo foi dar condições, por meio do Espírito Santo, aos crentes para obedecerem plenamente.[12]O contexto indica que a mesma lei moral que é aludida em 7:7 é mencionada aqui. Como complemento, em 13:8-10 o decálogo é referido como ainda normativo para os crentes.
2.      Como já foi declarado acima, Espírito Santo e Graça são sinônimos para Paulo, conforme o paralelo com Gl. 5:18 sugere. O fato de que os crentes não estão sob o poder do pecado, pois estão sob a graça indica isso. O poder do pecado, não contido pela lei, agora pode ser resolvido pela atuação do Espírito Santo na vida do crente. Agora há um poder para auxiliar na obediência a vontade de Deus, conforme o contexto propõe (vs. 12 e 13).[13]Isso nos leva ao terceiro argumento.
3.      O problema não era a lei e sim a carne. Ela, ao estar enferma pelo pecado, impedia a obediência. Todavia, o advento da graça, pela obra de Cristo, trouxe a solução para esta dificuldade (Rm. 8:3) e poder para obedecer (v. 4).
4.      A expressão “pois não estais debaixo da lei” funciona sintaticamente como a razão (gar) para a qual o pecado não exercerá seu domínio.  Entretanto, a remoção ou abolição da lei por si só não retira o poder do pecado, pois ele reinou antes da chegada da lei (Rm. 5: 13 e 14). A ausência do pecado implicaria no seu desconhecimento, mas não na sua remoção. Assim a frase de 4:15 “onde não há lei, também não há transgressão” pode ser entendida como se referindo a desobediência de mandamentos escritos e claramente identificados.[14]Logicamente ninguém pode ser acusado de transgredir algo que não conhece. Todavia não implica na eliminação da pecado.
5.      Não há nada no contexto da passagem que sugira ao crente a não observância da lei. O ponto de Paulo é evidenciar que a graça não é desculpa para o pecado, mas seu antídoto.
Enfim, a soma destes argumentos pesa contra a exclusão da lei moral. Ela permanece normativa para o crente, entretanto agora há uma nova situação para ele. A graça lhe fornece condições para obedecer. Essa é a visão que Paulo procura transmitir nestes versos e especialmente no verso 14.
Até... 



*Nota: Alguém poderia argumentar que em 7:22 e 25 a lei mosaica é qualificada com sendo de Deus, entretanto essa qualificação tem como razão o fato que a palavra lei é usada neste capítulo em diferentes sentidos. Algo que também pode ser o argumento para explicar 8:7.


Referências Bibliográficas
1. Joyce A. Little, Paul's Use of Analogy: A Structural Analysis of Romans 7:1-6 in The Catholic Biblical Quarterly, 46, 1984, pp. 83 e 84; idéia também de Frank Thielmann, veja Thielman, F. (2005). Theology of the New Testament: A Canonical and Synthetic Approach (362). Grand Rapids, MI: Zondervan. 
2. Arndt, William ; Danker, Frederick W. ; Bauer, Walter: A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature. 3rd ed. Chicago : University of Chicago Press, 2000, p. 677; Schreiner, Thomas R.: Romans. Grand Rapids, Mich. : Baker Books, 1998 (Baker Exegetical Commentary on the New Testament 6), p. 325; Dunn, James D. G.: Word Biblical Commentary : Romans 1-8. Dallas : Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 38A), p. 339; Osborne, Grant R.: Romans. Downers Grove, Ill. : InterVarsity Press, 200 (The IVP New Testament Commentary Series), p. 159; Haldane, Robert: An Exposition of Romans. electronic ed. Simpsonville SC : Christian Classics Foundation, 1996, p. 265.
3. Cottrell, Jack: Romans : Volume 1. Joplin, Mo. : College Press Pub. Co., 1996-c1998 (College Press NIV Commentary), Rm 6:13.
4. Para este paralelo veja George, Timothy: Galatians. electronic ed. Nashville : Broadman & Holman Publishers, 2001, c1994 (Logos Library System; The New American Commentary 30), p. 253 e Bruce, F. F.: The Epistle to the Galatians : A Commentary on the Greek Text. Grand Rapids, Mich. : W.B. Eerdmans Pub. Co., 1982, p. 176.
5. Cranfield, C. E. B.: A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans. London; New York : T&T Clark International, 2004, p. 320; Stott, John R. W.: The Message of Romans : God's Good News for the World. Leicester, England; Downers Grove, Ill. : InterVarsity Press, 2001], c1994 (The Bible Speaks Today), p. 181.
6. Calvin, John: Calvin's Commentaries: Romans. electronic ed. Albany, OR : Ages Software, 1998 (Logos Library System; Calvin's Commentaries), Rm 6:14;
7. Dunn, James D. G.: Word Biblical Commentary : Romans 1-8. Dallas : Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 38A), p. 340
8. Schreiner, Thomas R.: Romans. Grand Rapids, Mich. : Baker Books, 1998 (Baker Exegetical Commentary on the New Testament 6), p. 326, Dunn, James D. G.: Word Biblical Commentary : Romans 1-8. Dallas : Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 38A), p. 339; Moo, Douglas, Exegetical Notes: Romans 6:1-14 in TrinJ 3 NS (1982), p. 220.
9. Barrick, William, The New Perspective and “works of the law” (Gál. 2:16 and Rom. 3:20) in TMSJ 16/2 (2005), pp. 277-292; Thomas, Robert, Hermeneutics of the new perspective on Paul in TMSJ 16/2 (2005), pp. 293-316; Lopes, Augustus, A Nova Perspectiva sobre Paulo: um estudo sobre as obras da lei em Galátas em FIDES REFORMATA XI, Nº 1 (2006): 83-94.
10. Jr., Walter Kayser, God’s Promise Plan and His Gracious Law in JETS 33/3 (September 1990) 290.
11. Schreiner, T., The Abolition and and Fulfillment of the Law in Paul in JSNT 35 (1989), 47-74.
12. Achtemeier, Paul J.: Romans. Atlanta : John Knox Press, 1985 (Interpretation, a Bible Commentary for Teaching and Preaching), p. 134
13. Fitzmyer, J. A., S.J. (2008). Romans: A new translation with introduction and commentary (447). New Haven; London: Yale University Press’
14. Schneider, J., παράβασις in Theological dictionary of the New Testament. 1964-c1976. Vols. 5-9 edited by Gerhard Friedrich. Vol. 10 compiled by Ronald Pitkin. (G. Kittel, G. W. Bromiley & G. Friedrich, Ed.) (electronic ed.) (5:739-740). Grand Rapids, MI: Eerdmans.

domingo, 8 de julho de 2012

Quem é a Pedra? Mt. 16:18

Nosso blog trata de temas que julgamos interessantes e ao mesmo tempo têm suscitado dúvidas. Nossa idéia é desenvolver o gosto pelo estudo do NT e da Bíblia como um todo. Além disso, dar algumas informações contextuais que podem ser relevantes para o estudo de determinado texto. Todavia, é claro, que não esperamos ser a última palavra quanto ao assunto, mas apenas contribuir para o estudo e compreensão do mesmo. Além disso, temos publicado pouco para tentar preparar algo de qualidade pra sua leitura. Dito isto, vamos ao tema de hoje. Espero que seja útil.

Tema em questão
Entre os textos que são alvo de muita discussão entre os estudiosos está Mateus 16:18: "Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela." E a razão para tanto debate repousa na expressão "esta pedra" e seu referente no texto. Ela se refere a que? A Pedro, a Jesus, a confissão de Pedro, aos doze, a Deus, a verdade revelada para Pedro ou ao ofício de pregador exercido por Pedro [1] ou ainda ao ensino de Jesus (como em 7:24 [2]). Como pode se perceber são muitas as opções, todavia é lógico que só uma estava na mente do autor ao compor estas sentenças. Entretanto, creio que estas alternativas podem ser limitadas a dois grupos: aquelas que de alguma forma, direta ou indireta, se referem a Pedro e aquelas que se referem, nos mesmos padrões do outro grupo de interpretação, a Cristo. O contexto e as relações sintáticas podem nos auxiliar na decisão de qual destas propostas se ajusta melhor aqui.

Interpretações
Em anos recentes a visão que tem se tornado preponderante é que em Mt. 16:18 Pedro é a Pedra [3]. É dito que essa é a leitura mais natural do texto. Todavia, isso não implica que Pedro tenha sido o primeiro Papa ou coisas do gênero [4]. Em que se baseia essa explicação? Eis os pontos salientes nessa visão: 1) Ela explica o jogo de palavras que existe no verso (Pedro e Pedra; gr. Pe,troj| e pe,tra|). Voltaremos a esse ponto mais tarde; 2) Toma estes termos como sendo intercambiáveis, já que Petra é apenas o feminino de Pedro em grego, não implicando isso em mudança de significado; 3) Soma-se a isso o possível pano de fundo da conversa em aramaico, onde o texto estaria assim: "Tu és Kepha e sobre esta Kepha edificarei a minha igreja..."; 4) A expressão que é usada por Jesus "a ti" (soi) está em harmonia com o pronome pessoal "tu" (su.) do verso 18 e com os verbos na segunda pessoa do singular dos versos 17 e 19 "és"(ei=), sempre tendo como referente Pedro, o que indicaria que nestes versos todos (17-19) Jesus sempre se dirige a Pedro. Portanto, ele é a Pedra, pois não há evidência de que há mudança de sujeito no contexto [5]. 5) O verso 19, em face de seu pano de fundo, é apontado como evidência adicional para isso [6].
Do outro lado, aqueles que sugerem que Jesus, Seu ensino ou a Deus [7], é o antecedente de "esta rocha" o fazem argumentando da seguinte maneira: 1) Pedro e Pedra tem diferentes sentidos, sendo respectivamente pedra e rocha; 2) O demonstrativo "esta" sugere outro referente e não Pedro, pois é com ele que Jesus está dialogando. Tal pronome geralmente refere-se a algo de que se fala e não com quem se dialoga (8); 3) O possível pano de fundo aramaico do diálogo é desconsiderado, pois alega-se que não há evidências de que este tenha ocorrido em tal idioma, além disso o texto que temos está em grego e é ele que deve ter primazia na interpretação.

Avaliação e Implicações
É perceptível que ambos os lados possuem perguntas que permanecem sem respostas inequívocas. Todavia, embora isso seja claro, uma das interpretações têm mais pontos a favor do que contra.
É importante lembrar que utilizar textos de outros livros da Bíblia para interferir na interpretação deste verso de Mateus é incompreensível e inconveniente. É verdade que outros textos podem auxiliar na ratificação do estudo deste, mas não como base de sua interpretação como querem alguns [9].

Em segundo lugar não me parece correto utilizar um suposto pano de fundo aramaico para o entendimento do verso. O texto deve ser tomado como está para o estudo. Tentar conjecturar, embora comum a muitos teológos, um possível diálogo em aramaico e a partir daí tecer a interpretação é basear o comentário em um argumento no mínimo subjetivo, pois Jesus pode ter dito isto no próprio idioma grego [10]. Além disso, mesmo que o tenha feito em aramaico, não há certeza se ele usou o mesmo termo (Kepha) para se referir a Pedro e a Pedra.
Em terceiro lugar estes termos, embora usados com sentidos diferentes muitas vezes, na prática podem e várias vezes foram usados também de maneira intercambiável [11]. De modo que aqui pode ocorrer o mesmo. Além disso, é correta a observação que não há mudança de sujeito nos versos 17-19, sempre Jesus se dirige a Pedro.
A questão passa a ser a seguinte: é possível que o demonstrativo "esta" refira-se a Pedro ou como é argumentado, algumas vezes, ele só é utilizado para se referir a algo de quem se fala e não com quem se fala? O primeiro ponto a ser analisado é que esse demonstrativo (gr. οὗτος) pode se referir ao antecedente mais próximo no contexto, na mente do escritor ou ainda no tempo do autor ou audiência [12]. Assim que é possível que "esta" não se refira a Pedro. Além disso, Jesus poderia ter afirmado: e sobre ti, ao invés de esta pedra, edificarei a minha igreja. Entretanto, a despeito da atratividade dessa sugestão, não creio que o texto deva ser assim entendido. Abaixo cito as razões:
1) Mateus poderia ter usado a palavra li,qoj e assim evitar o trocadilho; 2) Soma-se a isso o fato que quando a referência de pedra ou rocha é a Jesus, no NT, normalmente o termo utilizado é esse e não
 pe,tra| [13]; 3) Embora seja correto afirmar que "esta" não tem antecedente próximo no contexto, quando Pedro é eliminado como referente, o subjetivismo praticamente toma conta da exegese, pois qualquer que seja a explicação há subsídios no NT para defendê-la; 4) E por fim, em todo o contexto, as declarações de Cristo são dirigidas a Pedro. Por tal razão essa é a leitura mais natural do texto.
Parece justa a sugestão de que Pedro seja a Pedra neste texto, entretanto utilizar essa afirmação para defender o papado e sua base bíblica é exagero e historicamente questionável [14].
Nem que Jesus, por causa disso, deixa de ser a Rocha ou Pedra, na Bíblia. Há amplas evidências de que Ele o seja.
Até...
Referências Bibliográficas
1. Para estas sugestões, veja Davies, W. D., & Allison, D. C. (2004). A critical and exegetical commentary on the Gospel according to Saint Matthew (627). London; New York: T&T Clark International.
2. Para a possibilidade desta interpretação, veja Gundry, R. H. (2003). A Survey of the New Testament (Fourth Edition) (186). Grand Rapids, MI: Zondervan.
3. Para uma defesa dessa visão, veja Morris, L. (1992). The Gospel according to Matthew (423). Grand Rapids, Mich.; Leicester, England: W.B. Eerdmans; Inter-Varsity Press; Hagner, D. A. (2002). Vol. 33B: Word Biblical Commentary : Matthew 14-28. Word Biblical Commentary (470). Dallas: Word, Incorporated; Osborne, G. R. (2010). Matthew (627). Grand Rapids, MI: Zondervan; Blomberg, C. (2001, c1992). Vol. 22: Matthew (electronic ed.). Logos Library System; The New American Commentary (252). Nashville: Broadman & Holman Publishers; Keener, C. S. (2009). The Gospel of Matthew: A Socio-Rhetorical Commentary (427). Grand Rapids, MI; Cambridge, U.K.: Wm. B. Eerdmans Publishing Co; France, R. T. (2007). The Gospel of Matthew. The New International Commentary on the New Testament (622). Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publication Co; Carson, D. A. (1984). Matthew. In F. E. Gaebelein (Ed.), The Expositor's Bible Commentary, Volume 8: Matthew, Mark, Luke (F. E. Gaebelein, Ed.) (368). Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House. Para citar apenas alguns.
4. Chouinard, L. (1997). Matthew. The College Press NIV commentary (Mt 16:18). Joplin, Mo.: College Press.
5. Embora não seja dito claramente isso, esta é a implicação imediata de sua explicação, veja Hendriksen, W., & Kistemaker, S. J. (1953-2001). Vol. 9: New Testament commentary : Exposition of the Gospel According to Matthew. Accompanying biblical text is author's translation. New Testament Commentary (645). Grand Rapids: Baker Book House
6. Albright, W. F., & Mann, C. S. (2008). Matthew: Introduction, translation, and notes (195). New Haven; London: Yale University Press.
7. Lenski, R. C. H. (1961). The Interpretation of St. Matthew's Gospel (626). Minneapolis, MN.: Augsburg Publishing House;
Walvoord, J. F. (2007; 2007). Matthew: Thy Kingdom Come (123). Galaxie Software.
8. Garland, D. E. (2001). Reading Matthew: A literary and theological commentary on the first Gospel. Originally published: New York : Crossroad, 1993. Reading the New Testament series (173). Macon, Ga.: Smyth & Helwys Publishing.
9. Para este tipo de estudo, veja MacArthur, J. (1989). Matthew (28). Chicago: Moody Press.
10. Turner, N. (1966). Grammatical insights into the New Testament. (181). Edinburgh: T. & T. Clark; Robertson, A. (1919; 2006). A Grammar of the Greek New Testament in the Light of Historical Research (29). Logos. A afirmação de Wise de que isso é apenas teoria não implica que não possa ter ocorrido. Veja os argumentos dele em Wise, M. O.. Languages of Palestine in Dictionary of Jesus and the Gospels edited by Green, J. B., McKnight, S., & Marshall, I. H. (1992). Downers Grove, Ill.: InterVarsity Press.
11. Cullmann, O., πέτρα in Theological dictionary of the New Testament. 1964-c1976. Vols. 5-9 edited by Gerhard Friedrich. Vol. 10 compiled by Ronald Pitkin. (G. Kittel, G. W. Bromiley & G. Friedrich, Ed.) (electronic ed.) (6). Grand Rapids, MI: Eerdmans.
12. Wallace, D. B. (1999; 2002). Greek Grammar Beyond the Basics - Exegetical Syntax of the New Testament (325). Zondervan Publishing House and Galaxie Software.
13. Mt. 21:42, 44; Rm. 9:33; I Pd. 2:4, entre outros.
14. Luz, U., & Koester, H. (2001). Matthew : A commentary. Translation of: Das Evangelium nach Matthaus.; Vol. 2 translated by James E. Crouch ; edited by Helmut Koester.; Vol. 2 published by Fortress Press. (374). Minneapolis: Augsburg. Embora não concordemos com a conclusão de Reymond, seus argumentos são muito úteis aqui. Veja, Reymond, R. L. (2001). The Reformation's Conflict with Rome: Why It Must Continue (36-52). Fearn, Ross-shire, UK: Christian Focus Publications. Veja ainda Schaff, P., & Schaff, D. S. (1997). History of the Christian church. Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc.

domingo, 1 de julho de 2012

Romanos 10:4: Cristo e a Lei

Romanos 10:4 tem uma importante declaração a respeito de Cristo e da Lei. Não é sem motivo que ele permanece como sendo um dos textos mais controversos do NT[1]. Schreiner cita pelo menos oito interpretações para este verso [2]. São elas: a lei foi abolida (visão Luterana), a era messiânica encerra a era da lei, a lei acabou como uma forma de salvação, Cristo é o fim da lei cerimonial, a exclusividade da lei é posta de lado, Cristo é o alvo da lei, Cristo é o fim e alvo da lei e por fim, Cristo é o fim de  usar a lei para obter a justiça. Qual destas posições se encaixa melhor no contexto?Nosso texto tentará averiguar isso. Então, vamos a ele.
O Texto em seu Contexto
Rm. 10:4: "Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê". (ARA). Um dos problemas deste verso é o significado exato de fim (gr. τέλος). Este termo pode ter dois sentidos: alvo [3] ou fim [4].  Alguns teólogos ainda defendem uma terceira opção ao sugerir que os dois sentidos estão presentes aqui [5].  Deve-se levar em consideração que o contexto também pesa quanto ao sentido de uma palavra. Um exemplo pode nos ajudar a entender esse ponto. A palavra gato é útil aqui. Ela pode ter três sentidos: um animal, alguém bonito e na linguagem da polícia um bandido. Qual destes três significados é correto? Todos. Mas o contexto identifica a que a palavra se refere. Comprendeu? Portanto, antes de nos posicionarmos quanto ao seu sentido, analisaremos brevemente o contexto.
O contexto de Rm. 10:4 começa em 9:30. Ali nos é informado que os gentios alcançaram, apesar de não estarem buscando, a justificação, todavia a que decorre de fé. Enquanto que Israel falhou em atingir a lei de justiça (em grego o genitivo é melhor explicado como sendo objetivo: a lei para justiça [6]). A razão (porque) para essa falha foi a busca por meio das obras e não da fé (9:32). O verso 32 ainda segue dizendo que eles tropeçaram na pedra que é Jesus como a citação do verso 33 deixa evidente. Em suma, o problema não era lei em si, mas a forma como Israel se relacionava com ela (por meio das obras), pois guardar a lei nunca foi contrário a fé no Antigo Testamento [7].
Os versos 1-4 do capítulo 10 são uma expansão do assunto [8]. Em 10:2 Paulo afirma que Israel tem zelo por Deus e essa é a razão (porque) pela qual ele intercede (v.1), porém esse é sem entendimento. Então o verso 3 apresenta dois particípios (desconhecendo e procurando) que explicam (porquanto) sua falta de entendimento. Dessa forma são contrastadas duas justiças: a de Deus e a sua própria (de Israel). Alguns sugerem que a expressão "própria justiça" está ligada a dimensões sociológicas. Ou seja, Israel impunha limites aos Gentios (sábado, circuncisão e leis dietéticas [9]) para se tornarem herdeiros de Deus. Todavia, duas razões nos impedem de defender essa visão aqui: 1) nada no contexto nos indica essa dimensão apenas social e 2) essa visão tem sido muito questionada em anos recentes [10].
A nação Israelita, por desconhecer que a justiça é fruto da graça, buscava estabelecer a sua própria, pelas obras (9:32) e não se sujeitaram a de Deus. Então temos o verso 4.
Paulo estabelece uma explicação adicional do porque não se sujeitaram a justiça de Deus: além de não terem entendimento (por desconhecer e procurar estabelecer sua própria justiça), eles ignoraram a figura de Cristo e sua relação com a Lei. E qual é essa relação? Cristo é o fim ou o alvo da Lei? Ou ambos?
Em todo o contexto o significado que melhor se encaixa é alvo. As razões são as seguintes: 1) A imagem de Paulo em 9:30-33 é de uma corrida (perseguir, obter) onde um alvo está em vista 2) O foco de todo o contexto é o modo de relacionamento (por obras) com a Lei e não ela mesma [11] 3) Coaduna melhor com contexto mais amplo da Carta (Rm 3:31). Dar os dois sentidos ao termo τέλος é no mínimo incoerência, já que os dois significados praticamente se excluem. Assim, Cristo é o alvo para o qual a Lei foi intencionada. A justiça não está na Lei, mas em seu alvo: Jesus. E todo aquele que crê nEle é justificado.
Em outras palavras: Israel não deveria confiar na observância da Lei para a obtenção de justiça, mas em Jesus, o alvo (objetivo, propósito) para o qual ela apontava. É por tal razão que Paulo termina o verso 4 afirmando que Ele é o alvo da Lei para todo aquele que crê. O que Romanos deixa claro aqui é que salvação (justificação, perdão) só se encontra em Jesus. Todavia, isso não significa que a Lei não deva ser observada, pelo contrário, se nossa interpretação está certa, a lei nos guiará e manterá com os olhos nEle. 

Considerações Finais
Não há nada no contexto imediato, nem na Carta como um todo (Rm. 3:31; 7:12; 8:4; 13:8-10) que diminua a normatividade da Lei para a vida do crente. Paulo trata aqui de maneira experiencial, ou seja, da realidade vivida por Israel e não da relação entre ela e o Evangelho. Nem a Lei, nem sua observância estão sendo questionados, mas uma forma particular de observá-la é a questão aqui no contexto (9:32).[12] Portanto utilizar este texto para afirmar que não é mais necessária a obediência ou que Jesus a aboliu é desvirtuar o foco da mensagem de Paulo. Aqui também não cabe a interpretação de que só a Lei cerimonial está em vista, pois o contexto não dá indícios disso.
O propósito da Lei era levar o crente a ter fé em Cristo (Gl. 3:22-24). O Problema de Israel foi não entender isso. Depositaram sua fé na Lei e não em Jesus. Ela não foi dada como meio de salvação, mas como sinal de fé.
Guardar a Lei é um sinal de obediência e fé em Jesus, assim o era no AT e também o é hoje. Não há razões neste texto para não obedecer a Lei. Ela ainda é normativa para nós.
A melhor explicação para o texto é a que afirma que Jesus é o alvo da lei para a obtenção de justiça.
Espero que está breve explanação possa ajudá-lo em sua caminhada cristã.
Até...

Fontes Bibliográficas
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